A Guerra dos Farrapos e o massacre dos Lanceiros Negros

By on 17 de Septiembre de 2020 0 751 Views

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*

A Revolução Farroupilha (1835-1845) eclodiu, no Brasil, na Província de São Pedro (RS), durante a Regência Una do Padre Diogo Antônio Feijó (1784-1843). Considerada a mais longa guerra civil, que a história brasileira registra, ocorreram 59 vitórias para cada lado e 3,4 mil óbitos. Às margens do Rio Jaguarão, na manhã de 11 de setembro de 1836, a República Rio-Grandense foi proclamada, no Campo dos Menezes, pelo Gen. Antônio de Souza Netto (1803-1866).
Com o epíteto de “República das Carretas“, dado pelo folclorista e historiador Barbosa Lessa (1929-2002), ela tinha como característica a instabilidade devido às constantes mudanças da sede do governo farroupilha. Quando a segurança da capital era ameaçada pela aproximação das tropas imperiais, eram tomadas medidas para que se efetivasse a sua transferência. Em virtude disso, a novel República teve, com caráter oficial, três capitais: Piratini, Caçapava e Alegrete.

CAUSAS
Na época, o Rio Grande do Sul estava bastante prejudicado, principalmente, no aspecto econômico, devido aos altos impostos taxados pelo império sobre o charque (carne seca), que alimentava a escravaria de outras províncias, sendo o nosso principal produto na época. Havia também elevados impostos cobrados em relação ao couro e à propriedade rural. É importante que se destaque: o charque gaúcho, na época, estava sendo preterido pelo governo imperial que preferia comprar o produzido na região platina devido ao seu menor preço e por considerá-lo de melhor qualidade. Diante do centralismo político do governo imperial e do persistente descaso em atender às reivindicações , principalmente as de caráter econômico e político da província gaúcha, esta se rebelou, iniciando uma longa guerra civil.

A MAÇONARIA
Em 18 de setembro de 1835, Bento Gonçalves da Silva (1788-1847) abriu a reunião na Loja Maçônica Filantropia e Liberdade, na qual, ele e outros líderes, definiram a data do início da Revolução Farroupilha, que ocorreu com a invasão da Capital , pela Ponte da Azenha – na época de madeira – na madrugada de 20 de setembro de 1835. Estavam presentes nesta reunião: José Gomes Jardim (1774-1854), Onofre Pires (1799-1844), Pedro Boticário (1799-1850), Vicente da Fontoura (1807-1860), Paulino da Fontoura (1800-1843), Antônio de Souza Neto (1803-1866) e Domingos José de Almeida (1797-1871). Esta loja, que se situava na atual Vigário José Inácio, funcionava como um “Gabinete de Leitura”, visando a desviar a atenção dos opositores à Ordem Maçônica. Nesta loja nasceu o jornal O Continentino (1831-1833), defendendo os ideais liberais. No local também havia uma escola das primeiras letras.
No Rio de Janeiro, capital do império, o termo “farroupilha” era a denominação dada à facção política liberal mais radical que combatia o centralismo do governo imperial. Em 1831, o termo apareceu estampado nos jornais cariocas “Matraca dos Farroupilhas” e “Jurujuba dos Farroupilhas”.
O vocábulo, de acordo com o historiador Walter Spalding (1901-1976), deriva da palavra portuguesa farroupa que apareceu, em 1700, nas atas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, designando agricultores e criadores de gado que usavam roupas humildes e gastas.

O COMBATE DO BARRO VERMELHO
Entre outros confrontos bélicos ocorridos durante a Revolução Farroupilha (1835-1845), destaco, especialmente, o que se deu , no dia 30 de abril de 1838, na Vila de Rio Pardo. Encontrava – se no lugar o maestro negro, natural de Minas Gerais, Joaquim José de Mendanha (1800- 1885) com sua banda, quando este foi atacado pelas tropas farroupilhas. Conhecido como o Combate do Barro Vermelho, os farroupilhas venceram, e o maestro, que pertencia ao Segundo Batalhão de Caçadores da Primeira Linha, foi aprisionado com a sua banda.
Conquistada a Vila de Rio Pardo, os farroupilhas exigiram que o maestro Mendanha compusesse o Hino da República Rio-Grandense, que havia sido proclamada na manhã do dia 11 de setembro de 1836, nos Campos dos Menezes, pelo Gen. Antônio Souza Netto (1803-1866). Esta proclamação ocorreu um dia após a vitória contra as tropas imperiais de Silva Tavares (1792-1872), na Batalha de Seival, em Bagé.
Embora prisioneiro, o maestro foi tratado com respeito pelos republicanos – afinal era único capaz de compor um hino, naquela ocasião, e assim nasceu a música do Hino Rio-Grandense, conhecido também como Hino Farroupilha.

O HINO RIO-GRANDENSE
Desde a sua primeira execução, conforme a edição, de 4/05/1839, do Órgão Oficial da República Rio-Grandense, “O Povo” (1839-1840), ocorreram três versões da letra do nosso hino, embora tenha sido mantida a composição do maestro Mendanha.
A versão oficial foi definida no Centenário Farroupilha (1935), durante o governo de Flores da Cunha (1880-1959), por um seleto grupo do Instituto Histórico e Geográfico do RS. A sua segunda estrofe foi suprimida, em 1966, durante o regime militar que, provavelmente, a interpretou como subversiva. Os versos diziam assim:
“ Entre nós reviva Atenas
Para assombro dos tiranos;
Sejamos gregos na glória,
Virtude, romanos”
A letra – aprovada e oficial – é de Francisco Pinto da Fontoura (o Chiquinho da Vovó) e a música é, ainda, àquela composta pelo maestro negro Joaquim Mendanha, após ter sido aprisionado, em Rio Pardo, pelos farroupilhas.
Há um estribilho, no Hino, que nos transmite a ideia de que a Guerra dos Farrapos foi defensora da liberdade e contra as injustiças sociais, reforçando um civismo que teria sido herdado dos farroupilhas. Esta questão nos leva a questionar: à qual liberdade o hino se refere? Certamente não se trata da liberdade dos escravizados e nem da população miserável e analfabeta da época. Logo, este estribilho diante de um aprofundado estudo e de uma reflexão sobre a Revolução Farroupilha, cuja luta não visava à mudança da estrutura latifundiária e escravocrata da época, vai de encontro a ideia que busca nos transmitir de justiça e de igualdade. O verso – “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”- trata-se, com certeza, de um imaginário construído e alimentado ao longo dos anos.

OS LANCEIROS NEGROS
Este importante combate, na Vila de Rio Pardo, além de remeter à criação do Hino Rio-Grandense, de maneira inusitada, com a prisão do maestro monarquista. é importante que nos lembremos da presença dos bravos “Lanceiros Negros”, que eram temidos pelos imperialistas Liderados peloCel. Joaquim Teixeira Nunes (1802-1844), estes escravizados, em sua maioria, eram recrutados, entre os que trabalhavam no campo e /ou exerciam a função de domadores para os seus senhores. Outros, na realidade, eram escravizados que fugiam dos Imperiais. Visando ao sonho da liberdade, estes ingressavam nas tropas farroupilhas. Os lanceiros, munidos de adagas e lanças, transformavam-se em verdadeiros gigantes bélicos, pois acreditavam que a promessa de liberdade a cada confronto estava em jogo.
Os lanceiros negros, em sua maioria, montavam a cavalo – quase em pelo – à moda charrua, com suas lanças de madeira, medindo em torno três metros. Os melhores atiradores recebiam as poucas armas de fogo que eram utilizadas em momentos específicos. Os ponches de lã lhes serviam de cama e de proteção contra as intempéries.
A cavalo, durante o combate, o ponche enrolado, no braço esquerdo, amortecia ou desviava de uma lança ou de um golpe de espada. Desmontado, corpo a corpo, o ponche servia para aparar ou desviar de uma adaga. Também se utilizavam de boleadeiras, cuja origem é indígena, abatendo o inimigo quando estava distante do alvo da sua lança.

O ATAQUE “SURPRESA”
Um episódio que suscita polêmica entre os historiadores, até os dias de hoje, está ligado à famosa Batalha de Porongos, que ocorreu há 176 anos, quando as negociações de paz já estavam em curso. Alguns dias antes, comandando 100 Lanceiros Negros, o Cel. Joaquim Teixeira Nunes (1802-1844), havia sido responsável por baixas significativas no grupo comandado pelo legalista Francisco Pedro Buarque de Abreu (1811-1891), apelidado de Moringue. Assaltado, de “surpresa”, o acampamento, na madrugada de 14 de novembro de 1844, pelo mesmo Moringue, ocorreu o massacre do Corpo de Lanceiros Negros que se encontravam acampados na atual região do município de Pinheiro Machado.

A CARTA
Há uma discussão que se prolonga acerca da veracidade de uma carta que registra ter havido um acordo entre o Duque de Caxias (1803-1880) e David Canabarro (1796 -1867)-, para que atacassem, à noite, os Lanceiros Negros que se encontrariam desarmados. Considerados, no campo de batalha, insuperáveis, esta teria sido a solução encontrada para dizimá-los: um massacre covarde, no qual mais de 100 negros foram assassinados.
De acordo com historiador Mário Maestri, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul reconheceu, na correspondência, a assinatura do Duque de Caxias como autêntica. (MAESTRI, 1993). Já os defensores da figura de David Canabarro defendem a tese de que esta carta teria sido forjada pelos legalistas para incriminá-lo (NASCIMBENE, 2009).
Nesta polêmica carta se encontra o seguinte trecho: “No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro.”
O destino dos lanceiros negros, que sobreviveram àquela noite de horror, ainda é um tema controverso. Com assinatura do Acordo de Paz de Ponche Verde, em março de 1845, os escravos ainda engajados seriam entregues ao Barão de Caxias e reconhecidos como livres. Sabe-se que, um grupo foi enviado , em 1845, para o Rio de Janeiro como liberto, de acordo com o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro de 26 de agosto de 1845. Se, realmente, foram libertos, quando chegaram ao seu destino, não se pode garantir. O ex-farroupilha Manuel Caldeira suscitou suspeitas de que estes teriam sido novamente, escravizados e encaminhados para a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, como propriedade do Estado. Ao término da guerra, em 1845, o general Antônio de Souza Netto, que era republicano e abolicionista, retirou-se para o Uruguai com alguns negros, que sobreviveram, enquanto outros lanceiros foram enviados para o Exército do Rio de Janeiro.

O SONHO DE SER LIVRE
Apesar das promessas, em nenhuma ocasião a República Rio-Grandense alforriou seus escravos. A questão abolicionista causava divisão entre seus líderes farroupilhas. Ao mesmo tempo em que os farroupilhas prometiam a liberdade aos escravos, condenando o tráfico negreiro, o Órgão Oficial da República Rio-Grandense, O Povo (1938-1840), divulgava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolir a escravidão, por meio de projeto que foi apresentado à Assembleia Constituinte, em 1842, por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Ao término da guerra, líderes farroupilhas tinham escravos, a exemplo de Bento Gonçalves da Silva (1788-1847), que deixou 53 cativos para seus herdeiros.
A tradição de lutar, preservando o território, era própria dos milicianos gaúchos, ao longo do tempo; embora a falta de reconhecimento político por parte do Império. Em 19/03/1843, um cometa cruzou os céus, sendo percebido, pelos farroupilhas, como um mau presságio numa luta que já completava oito anos. Este cometa foi batizado, pelo imaginário popular, de “Estrela de Caxias”. Curiosamente, no início da Revolução Farroupilha, em novembro de 1835, já havia passado o cometa Halley.
Com a assinatura do Acordo de Paz, em Ponche Verde, em 1845, a província, que havia se separado, reintegrou-se ao Império do Brasil após a campanha do General Luis Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, que passou para a história como o “Pacificador”, embora quanto à sua figura existam críticas severas de estudiosos que vão de encontro a esta historiografia oficial de exaltação de heróis. O lado farrapo, na realidade, perdeu quase o dobro de homens ao finalizar a guerra.

O MITO FARROUPILHA
O jornalista Walter Galvani, em seu livro, A difícil Convivência (2013), aborda com muita propriedade a situação política da antiga “Nossa Senhora Mãe de Deus de Porto Alegre” e de outras cidades no contexto da Revolução Farroupilha (1835-1845). Os grandes centros urbanos à época, como as cidades de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, permaneceram na maior parte do tempo em poder das forças imperiais, ou seja, legalistas. Na realidade, estamos falando de uma “Revolução” liderada por uma oligarquia formada por estancieiros e militares que, em sua maioria, salvo raras exceções, eram proprietários de terras e escravocratas, que defendiam seus interesses de classe. (CARRION, 2005).

LEAL E VALEROSA CIDADE / O BRASÃO DE PORTO ALEGRE
No dia 15 de junho de 1836, Porto Alegre, que, desde 20 setembro de 1835, encontrava-se sob o poder dos farroupilhas, foi tomada pelos imperiais comandados pelo major Manuel Marques de Souza (1804- 1875), futuro conde de Porto Alegre, após sua fuga do navio-prisão – ancorado no Guaíba – conhecido como Presiganga,
Os farroupilhas não conseguiram invadi-la, novamente, embora a tenham sitiado, por três vezes, a partir da Vila Setembrina (Viamão), entre 1836 e 1840 (FRANCO, 2000). Graças a essa resistência, Porto Alegre recebeu de dom Pedro II, em 1841, o título de “Leal e Valorosa Cidade” que está registrado no brasão da cidade, criado pela Lei n° 1030, em 22/01/1953. A lei foi assinada pelo prefeito Ildo Meneghetti (1895-1980), sendo o responsável pelo desenho o artista plástico Francisco Bellanca (1895-1974).
A ideia, perpetuada pelo imaginário popular, de que a capital da Província de São Pedro (RS), ou melhor, que toda a Província comungava com os ideais dos farroupilhas, é um equivoco histórico. Existem pesquisas realizadas por historiadores sérios e competentes, como Sérgio da Costa Franco, Moacyr Flores, Mário Maestri, Sandra Jatahy Pesavento (1945-2009), Helga Piccolo, entre outros nomes importantes, que nos esclarecem acerca da realidade dos fatos, que ocorreram naquele período da nossa história.
Ao encerrar este longeva guerra, os campos e as estâncias estavam despovoados e as charqueadas de Pelotas e nas margens do Guaíba e Jacuí ficaram empobrecidas. Cerca de 4000 rio-grandenses emigraram para outras províncias do Brasil e, principalmente, para o nosso vizinho Uruguai. (FLORES, 2003).
Nos anos que se seguiram à pacificação, em Ponche Verde (1845), farroupilhas e legalistas se uniram no mesmo exército, lutando na Guerra do Prata (1851-1852) e, depois, na Guerra do Paraguai (1864-1870).
Ao finalizar este texto, ressalto que a Revolução Farroupilha (1835-1845), apesar de seu caráter elitista, representou, sim, uma resistência aos desmandos políticos e à exploração econômica por parte do Império que, naquele momento, considerava a província de São Pedro (RS) “uma grande estalagem do Império”, parafraseando a historiadora Sandra Jatahy Pesavento (1946-2009).
Neste ano de 2020, a Revolução Farroupilha completa 185 anos. A Lei nº 4.850 de 11 de dezembro de 1964 (com algumas alterações posteriores), tornou oficial a Semana Farroupilha que deverá ser comemorada de 14 a 20 de setembro a cada ano.

 

 

Pesquisador e responsável pelo núcleo de pesquisa do MuseCom

 

Referências Bibliográficas:
BENTO, Cláudio Moreira. Estrangeiros e Descendentes Na História Militar do Rio Grande Do Sul- 1635 a 1870. Porto Alegre: Editora A Nação S/A , IEL – DAC –SEC, 1976.
CARRION, Raul. Os Lanceiros Negros na Guerra dos Farrapos. 2 ed. Porto Alegre: Gabinete do Vereador Raul Carrion, 2005.
FAGUNDES, Antonio Augusto. Revolução Farroupilha / Cronologia do Decênio Heroico (1835-1845). Porto Alegre: Martins Livreiro, 2008.
FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre Sitiada /Um Capítulo Da Revolução Farroupilha 1836-1840. Porto Alegre: Editora Sulina, 2000.
FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha: Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde. Porto Alegre: EST, 2004.
—————— História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ediplat, 2003.
LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. História da Imprensa. In: “Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa – 30 anos”. Porto Alegre: CORAG, 2004.
MAESTRI, Mário. O Escravo Gaúcho – Resistência e Trabalho. Porto Alegre : UFRGS, 1993.
NASCIMBENE, Luigi (1801-1873). Tentativa de Independência do Estado do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: CiaE, 2009.

 

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