Alô ! Surge o telefone na Capital Gaúcha…

By on 22 de Abril de 2020 0 225 Views
Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite *

No início da telefonia no Brasil, o escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) presenteou o nosso imperador dom Pedro II (1825-1891) com um aparelho – fabricado por ele próprio – que foi instalado , em 1877, no Palácio Imperial de São Cristovão, na Quinta da Boa Vista, atual Museu Nacional do Rio de Janeiro. Chegava, assim, o primeiro telefone em solo brasileiro.

O IMPERADOR DO BRASIL E GRAHAM BELL
Nosso imperador teve o primeiro contato com esta invenção na Exposição Internacional Centenária na Filadélfia (1876), que ocorreu durante as comemorações da Independência dos Estados Unidos das Américas (1776-1876). Além do telefone, estavam sendo expostos: a lâmpada elétrica, um telégrafo musical , a máquina de escrever, entre outros inventos importantes. Reza a tradição de que dom Pedro II, ao levar o fone até o ouvido, escutou surpreso o verso do texto de Hamlet, extraído da peça de Wiliam Shakespeare (1564 -1616): “To be, or not to be, that is the question”. Naquele momento, nosso imperador teria dito surpreso: “Meu Deus isto fala !”.

O PRIMEIRO TELEFONE EM PORTO ALEGRE
Em 15 de setembro de 1886, o telefone chegou a Porto Alegre por meio da União Telephonica do Brazil, cuja sede se localizava no Rio de Janeiro. Inaugurado pelo então presidente da Província dop Rio Grande do Sul, Gen. Manoel Deodoro da Fonseca (1827-1892), este alagoano teve a ´primazia da primeira ligação. Ao dizer “Alô”, ele deu inicio à presença do telefone em nossa capital. Transcorridos três anos, em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, encerraria o ciclo de 67 anos (1822-1889) do regime monárquico no Brasil, quando ele proclamou, por meio de um golpe militar, a República dos Estados Unidos do Brasil.
Tendo 72 assinantes e localizado num sobrado na esquina da Rua Riachuelo com a Gen. Câmara (antiga Rua da Ladeira), o Centro Telephonico de Porto Alegre seria demolido, em 1912, quando se iniciaram, naquele local, as obras para a construção da atual Biblioteca Pública do Estado da qual participou o engenheiro Teóphilo Borges de Barros. Este engenheiro também atuou na construção de um novo prédio, durante o Centenário da Indepedência do Brasil (1822-1922), para sediar o jornal republicano A Federação (1884-1937). Desde 10 de setembro 1974, nesse local, em pleno Centro Histórico, encontra -se instalado o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa ( MuseCom) , que completou, em 2019, seus 45 anos , prestando relevantes serviços junto à comunidade cultural do nosso Estado..

TEMPOS DIFÍCEIS ..
Entre a chegada do telefone até a fundação, em 1895, de outra empresa na cidade gaúcha de Pelotas, cujo nome era União Telephonica, a prestação deste serviço, na capital gaúcha, viveu uma década de várias interrupções. Buscando ampliar suas atividades nas cidades de Rio Grande e Porto Alegre, esta empresa veio a ocupar o antigo prédio do Centro Telephonico de Porto Alegre.. .

O EMPREENDEDOR GANZO
Na virada do século, em 1900, Juan Ganzo Fernandez (1873-1957) – um espanhol oriundo do Uruguai – onde já havia estimulado a telefonia – chegou a Jaguarão e implantou, ali, um centro telefônico. No ano de 1905, a telefonia já se fazia presente em Alegrete, Bagé, Cachoeira do Sul, Itaqui, Quaraí, Santa Maria, São Gabriel, Santana do Livramento, e Uruguaiana.
Em torno de 1906, o Coronel Ganzo – como era conhecido – organizou a Ganzo, Durruty &C. estabelecendo centros telefônicos em Rio Grande, Pelotas, Canoas, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Santa Cruz do Sul.

A COMPANHIA TELEPHONICA RIOGRANDENSE
No ano de 1908, Ganzo e os capitalistas Possidônio da Cunha, Manuel Py , entre outros nomes, fundaram, em Porto Alegre, a Companhia Telephonica Riograndense (CTRG), com o capital de Rs 1.100:000$000 (mil e cem contos de réis). Ao incorporar a esta a Ganzo, Durruty e CIA , na sequência compram, também, o acervo da Pelotense União Telephonica .
Criada a Cia Telephonica RioGrandense, ocorreu um salto qualitativo quando se implantam novas linhas e centrais vindas da Casa Siemens da Alemanha. Em Maio de 1912, foi inaugurada a linha Telefônica de longa distância Porto Alegre – Pelotas, sendo esta um verdadeiro marco da Telefonia Gaúcha.

PELOTAS CRIA A SUA PRÓPRIA EMPRESA
Descontentes com altas tarifas telefônicas, locais ou interurbanas, os pelotenses criaram, em 1919, uma empresa própria, cujo nome era Companhia Telephonica Melhoramento e Resistência ( CTMR), vindo a ser privatizada, mais tarde, pela Brasil Telecom.
No mês de Abril de 1922, a Central Automática de Porto Alegre entrou em operação, tendo sido, na época. a primeira cidade a dispor deste sistema, que utilizava telefones de disco.

BRIZOLA E A CRT
A Companhia Telefònica Riograndense (CTRG) passou, em 1927, às mãos do grupo estadunidense International Telephone End Telegraphi (ITT). No Ano de 1950, a ITT alterou o nome da Companhia Telefònica Riograndense para Companhia Telefônica Nacional (CTN), permanecendo no seu comando até Março de 1962, quando o Governador Leonel de Moura Brizola (1922-2004) a nacionalizou, dando origem à Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Com a assinatura, em fevereiro de 1962, do decreto 13.186 , ocorreu a nacionalizando dos serviços de telefonia no RS.

O PRIMEIRO ORELHÃO E O PROCESSO DE PRIVATIZAÇÃO
Nos anos de 1970, a CRT, era integrada ao sistema Telebrás. Nesse período , em março de 1973, foi instalado, em Porto Alegre, o primeiro “orelhão” na Praça da Alfândega, de acordo com a matéria e a fotografia, na época, registrada pelo jornal Zero Hora, cuja coleção , desde a sua fundação, em maio de 1964, faz parte da hemeroteca do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (MuseCom). Em 1993, a Revista Exame a considerou como a melhor empresa de serviços públicos do país.
Dois anos depois, em 1995, foi parcialmente privatizada e, em 1998, no período do governo de Antônio Britto, foi a primeira empresa pública de telefonia a ser desestatizada. Após ser vendida à Telefônica, ela foi revendida à Brasil Telecom , que , em 2008, foi comprada pela OI. Já o sistema celular seguiu como Telefônica Celular, passando a ser, em 2003, uma das formadoras da Vivo.

GANZO NA MEMÓRIA DE PORTO ALEGRE
Envolvido com iniciativas do setor de eletricidade e da indústria fabril, Ganzo criou , de acordo com o Dr. Sérgio da Costa Franco, em seu livro Porto Alegre / Guia histórico (1988), um Jardim Zoológico em sua propriedade conhecida como Vila Diamela, situada à Av. Getúlio Vargas, no Bairro Menino Deus. Este Jardim Zoológico, que abriu as suas portas ao público em 1913, tornou-se um local de lazer, reunindo , na época, multidões de frequentadores naquele tradicional bairro de origem açoriana.
Pioneiro no desenvolvimento da telefonia no Rio Grande do Sul, o espanhol Juan Ganzo Fernadez nasceu, nas Canárias, em 1873, e faleceu, no dia 02 de abril de 1957, em Florianópolis, onde , desde 1940, havia fixado residência. Em homenagem a sua importante contribuição para os gaúchos, foi criada a Av. Ganzo, que foi aberta no local da antiga Vila Diamela, na qual ele havia criado o famoso Jardim Zoológico.

BELL VERSUS O ITALIANO MEUCCI
Faz-se necessário, neste texto, que se registre uma importante disputa judicial ocorrida, em 2002, quanto à legitimidade de patente, que resultou na aprovação, pelo Congresso dos Estados Unidos, de uma resolução, estabelecendo, a partir daquela data, que a invenção do telefone deveria ser creditada ao italiano Antônio Santi Giuseppe Meucci (1808-1889). Embora essa decisão jurídica, o nome de Alexander Graham Bell permanece sendo aclamado como o legítimo inventor do telefone, o que nos ratifica o milenar ditado latino: “vox populi, vox Dei” (“a voz do povo é a voz de Deus”) !!

 

Pesquisador, articulista
e responsável pelo Núcleo de Pesquisa do MuseCom *

 

 

BIBLIOGRAFIA
FORTINI, Arquimedes. O Passado através da Fotografia. Porto Alegre: Editora Gráfica Papelaria Andradas, 1959.
FRANCO, Sérgio da Costa, ROZANO Mário (org.) Porto Alegre Ano a Ano/ Uma cronologia histórica 1732/ 1950. Porto Alegre: Letra & Vida,
———————— Porto Alegre / Guia Histórico. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1988.
GUIMARAENS Rafael. Rua da Praia / Um passeio no tempo. Porto Alegre: Libretos, 2010.
OLIVEIRA, Clóvis Silveira de. Porto Alegre / A cidade e sua formação. Porto Alegre: Gráfica e Editora Norma, 1985.
Jornal : Zero Hora / março de 1973

SITES:
http://memorialcrt.blogspot.com/2012/08/imagens-da-historia-da-companhia.html Acessado em 21/ 04-2020, às 18:23
http://www.radionors.jor.br/2013/04/os-ganzo-o-radio-gaucho-e-o-telefone-no.html Acessado em 21/04/2020, às 19:42
Texto “O telefone no Rio Grande do Sul”, do historiador Rogério Verlindo, que fez parte da Exposição Memória Visual de POA, realizada, no MuseCom, em 2007.

Agradecimento especial pelas fotos de seu acervo a:  Museocom / Blog da família Ganzo /  Memorial CRT  – Zero Hora / março de 1973 / Acervo MuseCom

Deixe uma resposta

A %d blogueros les gusta esto: