Associação Brasileira de Imprensa e seu fundador Gustavo de Lacerda (1854-1909).

By on 23 de Noviembre de 2018 0 203 Views

Por: Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite *

                                            “O jornalismo, entre nós, não é uma profissão:
                                              ou é eito, ou é escada para galgar posições (Gustavo de Lacerda).                                                                                                                                             

As transformações tecnológicas, que foram surgindo nas primeiras décadas do século 20, marcaram a transição de uma imprensa artesanal para uma imprensa de cunho empresarial. Dentro da ótica capitalista, o jornalismo passou a ser visto como importante fonte de investimento. A valorização dos periódicos (jornais e revistas) está ligada à nova temporalidade de uma sociedade que adentrou o novo século, no qual o binômio, composto pelas palavras modernidade e progresso, era a tônica. O telégrafo, aliado a novas técnicas de impressão, possibilitou uma maior tiragem do jornal, mantendo a qualidade na produção. Havia uma demanda no mercado por informação, cada vez mais rápida, acerca dos fatos que ocorriam no Brasil e no mundo. Tempos modernos…
É neste contexto de transformações socioeconômicas, que despontará um jornalista – nascido na antiga Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis / SC) Mulato e pobre, Gustavo de Lacerda (1854-1909) foi responsável, em 07 de abril de 1908, pela criação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Já no distante ano de 1858, havia ocorrido a primeira greve dos tipógrafos no Rio de Janeiro, combatendo as injustiças patronais e os baixos salários. Nos primórdios da história do movimento sindical, o pioneirismo de uma greve nasceu no âmago da classe trabalhadora ligada à imprensa.

A criação da ABI

No dia 7 de abril de 1908, num sábado ensolarado, à tarde, numa sala do terceiro pavimento do jornal “O Paíz”, foi criada a Associação de Imprensa, mais tarde Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Nossa imprensa, naquele ano, comemorava seu centenário de fundação (1808-1908). A ABI foi incisivamente combatida pelos donos de jornais, que não viam com “bons olhos” a figura de Gustavo de Lacerda. De acordo com Nelson W. Sodré, os donos de jornais se referiam à Associação Brasileira de Imprensa de forma depreciativa: “Aquilo é um grupo de malandros chefiados por um anarquista perigoso…”.
Embora tenham sido convocados os jornalistas e representantes de jornais para o ato de fundação, compareceram apenas nove. Gustavo de Lacerda foi eleito presidente e redigiu o estatuto da nova entidade. Baseado no modelo francês, a Associação deveria manter uma caixa de pensões e auxílios para os sócios e suas respectivas famílias, um serviço de assistência médica e farmacêutica, um retiro com enfermaria e residência para velhos e enfermos, biblioteca, salão de conferências e diversões além de abrir espaço por meio de titulação de capacidade intelectual e moral para o aspirante à profissão de jornalista.
A ABI esteve instalada, por um período, na sobreloja do jornal “O Paíz”. Entre 1908 a 1942, teve sete sedes, inclusive, uma delas de favor no Quartel da Polícia Militar. As leis municipais de 1921 e 1922, que não foram cumpridas, acabaram por conceder um terreno para a construção da sua sede própria, em 1932, efetivada por Pedro Ernesto.

Getúlio Vargas e a ABI

Importante que nos lembremos de que a ABI teve seu patrimônio enriquecido, tornando-se uma entidade respeitada no período ditatorial do Estado Novo (1937-1945), criado por Getúlio Vargas (1882-1954), que investiu alguns milhões de cruzeiros para recuperar a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Quatro milhões foram destinados para a edificação da sede da Esplanada do Castelo. Neste local, ele esteve, em 1931, quando foi proclamado presidente de honra da Entidade. Em seu discurso, Getúlio Vargas se referiu à classe dos jornalistas como: “desprotegida, relegada e esquecida e desejou que a ABI se transformasse num centro de estudos e de cultura, numa oficina de trabalho em proveito da comunhão nacional”.
Getúlio Vargas, em 1936, foi considerado sócio benemérito da entidade e, em 1938, assinou a lei reguladora do trabalho dos jornalistas profissionais. Em 1942, o presidente visitou a sede nova no final das obras. Em 1944, novamente, a ABI o recebeu para a inauguração do busto de Pedro Ernesto. Na ocasião, em seu discurso, proferiu que a imprensa, no início do século, “caracterizava-se como uma semiprofissão de homens inteligentes e desorganizados, oscilando entre a boemia e o aluguel das aptidões intelectuais, a dedicação extrema ao bem público e os arranjos dos bastidores públicos”. O presidente voltaria à sede da ABI, pela última vez, em 1952.

Morte

Passados dezessete meses da criação da ABI, em 4 setembro de 1909, aos 55 anos, Gustavo de Lacerda morreu, como indigente, na Santa Casa de Misericórdia, legando-nos a razão maior da sua luta: a criação de uma Instituição, cujos objetivos principais são dar apoio à organização profissional dos jornalistas e a defender as liberdades públicas, lutando pelas nobres causas nacionais. Ele é patrono da cadeira 14 da Academia Catarinense de Letras.

A missão

A criação da ABI foi ao encontro dos jornalistas brasileiros com ideais de solidariedade corporativa, ação coletiva e, principalmente, a visão de que a imprensa cumpre um papel fundamental, pois é responsável, também, pela valorização da cidadania, promovendo a luta em prol da liberdade de expressão. Que os ideais de Gustavo de Lacerda (1854-1909), pautados por justiça social, possam nortear a nossa sociedade, cujas feridas abertas, desde o período do Brasil Colônia, ainda sangram. Que sua luta persistente contra a desigualdade e a exploração dos poderosos, embora anônima para muitos brasileiros, sirva de exemplo no processo de construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite * / RS / Brasil
Pesquisador e Coordenador do Setor de Imprensa do Musecom*

 

Bibliografia

MARÇAL, João Batista. Um Século de Socialismo no Pampa. Porto Alegre: Cia. Rio-grandense de Artes Gráficas ( Corag), 1999.
MIRANDA, Marcia Eckert; LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. Jornais raros do Musecom: 1808-1924. Porto Alegre: Comunicação Impressa, 2008.
SEGISMUNDO, Fernando. Imprensa Brasileira. Vultos e problemas. Rio, 1962.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora LTDA, 1983.

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