Do entrudo às escolas de samba: Porto Alegre festeja MoMo

By on 25 de Febrero de 2020 0 148 Views
Por:   Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite * 

Nas raízes do nosso Carnaval, o entrudo era uma brincadeira, na qual os foliões lançavam, entre si, limões de cheiro, água, café, lama, farinha e até urina. .Devido ao aumento do número de participantes, esta bizarra diversão, que ocorria nas ruas, tornou-se causa de desavenças e ferimentos, o que levou as autoridades a coibirem a sua prática, a partir dos anos 1830 , que persistiu , na realidade, até o início do século 20.
A origem do Entrudo se encontra na Idade Média e acontecia nos três primeiros dias antes da Quaresma. Em Portugal, em algumas comemorações, havia grandes bonecos feitos de madeira, denominados de entrudos, cujo termo originou a denominação desta prática. Com os portugueses, o Entrudo chegou ao Brasil, em 1641, na cidade do Rio de Janeiro. O de caráter popular ocorria nas ruas, mas havia também o entrudo familiar, no qual os indivíduos jogavam limão de cheiro um nos outros, dando origem, mais tarde, ao lança-perfume. .
O introdutor da comédia de costumes, Martins Pena (1815-1848), natural do Rio de Janeiro, definiu o entrudo como um jogo bárbaro, pernicioso e imoral. O entrudo está presente nos primórdios do Carnaval de Porto Alegre e foi trazido , no século 18, pelos açorianos, O historiador Athos Damascenos Ferreira (1902 – 1975) registrou que a primeira proibição do Entrudo se deu, em 1837, pelo Conselho Geral do Município, sendo prevista a multa de dois a doze mil réis ou de dois a oito dias de cadeia, aumentando a pena no caso de escravizados. Embora as proibições e a campanha da imprensa da época, este costume se manteve por um longo período.
No ano de 1856, o Entrudo não ocorreu devido a uma epidemia de cólera em Porto Alegre. No ano seguinte, porém, retornou a sua prática. A transição para outro modelo de diversão popular, considerado pela elite como comportado e civilizado, em detrimento do violento entrudo, ocorreu dentro de um contexto que buscava reproduzir o estilo europeu.
No passado, em Porto Alegre, os festejos de Momo eram vivenciados pela classe média e alta nos cafés, teatros, confeitarias, clubes e associações. Nas ruas ocorriam jogos de confete, batalhas de flores, o lança-perfume e o corso de automóvel nas ruas principais, a exemplo da Rua dos Andradas, que foi batizada pelo povo, em função do nosso Guaíba, como a Rua da Praia. Já as camadas mais pobres da população eram excluídas da festa, embora houvesse a circulação de mascarados, que tocavam tambores e zabumbas de origem africana em diversos pontos da cidade.

O LEGADO DOS TERRITÓRIOS NEGROS, A EXCLUSÃO E O PRECONCEITO

Considerados o berço do samba, das tradições das religiões de matriz africana e da Liga da Canela Preta (futebol), os territórios negros, como a Colônia Africana, Areal da Baronesa, a Ilhota e Mont’Serrat, resistiram culturalmente na preservação do legado de seus ancestrais, após a Abolição. Infelizmente, com o passar dos anos, a especulação imobiliária e o progresso descaracterizaram estes territórios e empurraram os seus moradores – majoritariamente afrodescendentes e de baixa renda- para locais distantes e fora da área central da cidade, como o Bairro Restinga e Pinheiro, entre outros .

O MAPA DOS TERRITÓRIOS NEGROS

Daniele Vieira – professora de Geografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre – decidiu usar a experiência adquirida, em sua dissertação, no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para elaborar uma cartografia destes antigos territórios negros, visando a recuperar a memória que, infelizmente, a historiografia oficial invisibilizou.
Os problemas, que a população afrodescendente tem enfrentado, são mazelas sociais resultantes de uma Abolição da Escravatura (1888), que se deu de forma inconclusa. Ainda que a liberdade do escravizado, em nosso Estado, tenha ocorrida, em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, isso não alterou a situação de abandono pelo poder público (falta de políticas afirmativas) e a invisibilidade social dessa população. Desta forma, iniciou-se para o liberto um longo caminho de dificuldades, lutas e enfrentamentos em relação ao preconceito racial, pois a liberdade, após quase quatro séculos de escravidão, não veio acompanhada do direito à cidadania plena, restando ao negro liberto apenas a porta da rua e o estigma da condição de escravizado.
Infelizmente, o racismo se constitui numa chaga presente na sociedade brasileira, apresentando-se, na maioria das vezes, maquilado por um discurso construído sob a égide de uma democracia racial, que não corresponde à realidade social do negro brasileiro. Basta que analisemos os dados estatísticos levantados por órgãos sérios, como o IBGE, quanto à presença do negro no mercado de trabalho, para que tenhamos consciência do longo caminho percorrido pelos afrodescendentes, visando a ocupar espaços importantes no processo de construção de uma sociedade mais fraterna e com menos desigualdades.

CARNAVAL E O FUTEBOL

Considerado, em 1952, oficialmente, o primeiro jogador negro a integrar o quadro do Grêmio, Osmar Fortes Barcellos (1921-1979), o Tesourinha, participava do bloco Os Tesouras, donde se originou a sua alcunha. Este, a exemplo dos Prediletos, Embaixadores do Ritmo, Ai-vem-a Marinha, Namorados da Lua, entre outros, era um bloco oriundo da antiga Colônia Africana. Atualmente, nesta área se localiza o Bairro Rio Branco.
Uma característica dos blocos da cidade era a presença majoritária até os anos 50 e 60 de foliões masculinos. Quase sempre, as mulheres, que desfilavam , eram parentes dos integrantes e só podiam participar sob o olhar da mãe ou da irmã mais velha. Os grupos femininos, dos quais a nossa velha-guarda se recorda e são citados pelos pesquisadores do nosso Carnaval, são: As Fazendeiras, As Japonesas, As Fuzileiras, As Iracemas e As Heroínas da Floresta da Sociedade Floresta Aurora.
No limite entre os bairros Cidade Baixa e Menino Deus, está localizado o Areal da Baronesa – tradicional território negro – onde foi coroado Adão Alves de Oliveira (1925-2013), o seu Lelé, primeiro Rei Momo Negro da capital. Ele reinou de 1949 a 1952. Neste local, a partir da década de 1930, surgiram os Ases do Samba, Seresteiros do Luar, X do Problema, Nós os Democratas, Viemos de Madureira, Tô com a vela, entre outros blocos.
Oriunda da comunidade do Areal, nos anos 70, a dupla Bedeu e Leleco fundou o Grupo Pau Brasil. Este grupo é precursor do samba-rock. Nos anos 70, Bedeu e Leleco fundaram o Grupo Pau Brasil. Oriundos também da comunidade do Areal, esta dupla é precursora do samba-rock.
A Academia de Samba Integração do Areal da Baronesa, de 1994 até 2003, competiu no Carnaval de Porto Alegre. Totalizando em torno de 70 crianças, a bateria mirim, denominada de Areal da Baronesa do Futuro, sob a coordenação de dona Cleusa Astigarraga, continua a tradição do eterno berço do samba.
No Areal da Baronesa, um grupo de moradores, na Avenida Luiz Guaranha, lutaram bravamente, ao longo dos anos, e resistiram às tentativas de remoção e às especulações imobiliárias. Em 11 de julho de 2015, o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, entregou a esta comunidade a Lei número 11.871, que dá titulação ao lugar como terras oriundas de quilombos.

A ILHOTA , O SAMBA E O LUPI

A antiga Ilhota se localizava nas atuais imediações do Estádio Tesourinha e do Centro Municipal de Cultura. O local era assim conhecido antes da canalização do Arroio Dilúvio, que então a circundava, formando ali uma verdadeira ilha. Considerada, na Capital gaúcha, um importante território de resistência da cultura africana, nela nasceu Lupicínio Rodrigues (1914-1974), carinhosamente chamado de Lupi. Ainda menino, ele fugia de casa para as rodas de samba que ali se realizavam. Aos 14 anos, Lupi, que, mais tarde, ficaria conhecido, em todo o Brasil, como O Rei da dor de Cotovelo, compôs sua primeira música para o cordão Os Prediletos, cujo título era Carnaval. Jogos da Liga da Canela Preta ocorriam no antigo campo do Sport Club Internacional, localizado na Ilhota. Neste local, atualmente, encontra-se a Praça Sport Club Internacional.

SURGEM NOSSAS PRIMEIRAS ESCOLAS DE SAMBA

Aos poucos, os blocos superaram em quantidade as tradicionais sociedades carnavalescas, do século 19, a exemplo das Sociedades Esmeralda Porto-Alegrense (verde e branco) e Venezianos (vermelho e branco), tradicionais rivais nos concursos carnavalescos da época, ambas fundadas em 1873. Havia também a Germânia, a mais antiga fundada, por alemães, em 1855, e a Sociedade Floresta Aurora criada por negros alforriados, ainda, em atividade, desde 1872. Enquanto a população, com menos poder aquisitivo, divertia-se à vontade nas ruas, e neste caso os afrodescendentes eram os mais animados, a elite frequentava as sociedades e os bailes de máscara no Theatro São Pedro.
Alguns blocos deram origem a tradicionais escolas de samba. Entre outras importantes agremiações que, ainda, abrilhantam o nosso Carnaval, destaco a mais antiga: Bambas da Orgia. A Azul e Branco foi fundada, em 06 de maio de 1940, no Bairro da Santana, e originou-se do bloco Os Turunas. Neste ano de 2020, a escola completará seus 80 anos e apresentará na passarela do samba Carlos Alberto Barcelos ( O Roxo) , no Complexo Cultural do Porto Seco , o enredo que narra a história de sua trajetória no Carnaval de Porto Alegre. Detentora de 20 títulos, seu símbolo é a Águia altaneira, que foi concedido, em 1977, por sua madrinha a Portela – a famosa escola do Bairro de Madureira -, no Rio de Janeiro. Bambas da Orgia recebeu esta honra, após ter conquistado o título de campeã, ao defender o enredo Deslumbramento azul e branco em tempo de Portela.
A Azul e Branco está empatada, em números de campeonatos, com outra tradicional agremiação, nascida na Joaquim Nabuco, na Cidade Baixa. Trata-se da Imperadores do Samba – a vermelho e branco – conhecida como a Escola do Povo. Fundada em 1959, possui uma das maiores torcidas do nosso Carnaval.

A PIONEIRA PRAIANA

A Academia de Samba Praiana – a nossa verde e rosa – foi a pioneira ao introduzir, em Porto Alegre, em 1961, o modelo que se conhece como escola de samba, inspirado no carnaval carioca. A origem desta agremiação nos remete a jovens pelotenses, cujas reuniões se davam na extinta Lancheria Praiana, que se localizava, na Rua dos Andradas, no centro da cidade. Ali, em 1960, surgiu a ideia de se criar uma escola de samba. O famoso figurinista Dyrson Cattani – falecido em 2006 – inovou e encantou o público, quando a Praiana, naquele Carnaval de 1961, desceu a Avenida Borges de Medeiros e apresentou o enredo Coroação de Dom Pedro II, no qual as alas ostentavam luxuosas fantasias.
A importante Revista do Globo (1929-1967), que faz parte do acervo do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (MuseCom) , atualmente dirigido pelo museólogo Welington Silva, registrou, em fotos, as imagens deste memorável desfile da Praiana. Após a sua apresentação, as fantasias de destaque foram expostas na Livraria do Globo , localizada na Rua da Praia.

AS TRIBOS

Fazendo parte da tradição do Carnaval de Porto Alegre, desde a década de 1940, e criadas dentro do contexto de nacionalidade do Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas (1882-1954), as tribos carnavalescas atingiram o número de 17 agremiações. Atualmente, desfilam apenas Comanches e Guaianazes, que foram fundadas em 1959. A primeira tribo carnavalesca, Os Caetés, nasceu no Areal da Baronesa. Fundada, em 19 de abril de 1945 , no Dia do Índio, ela foi seis vezes campeã em sua categoria. O curioso é a presença de nomes que remetiam a tribos norte-americanas, a exemplo dos Xavantes e Comanches.

O ETERNO REI MOMO E SEUS PROJETOS SOCIAIS

Vicente Lomando Rao (1908-1973) foi um Rei Momo, que deixou a sua marca indelével na história do nosso Carnaval. Durante 22 anos, de 1950 a 1972, ele marcou gerações, com sua irreverência e elegância, ao comandar o Carnaval da nossa cidade. Rao foi um apaixonado torcedor colorado e um grande batalhador pelas causas sociais. Em 1956, ele foi eleito presidente da Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul, quando passou a ser identificado, também, como líder sindical.
Logo após o Golpe Civil-Militar de 1964, sua residência foi cercada pela polícia e pelo Exército. Felizmente, embora tenha sido preso, ele foi liberto, após 24 horas, devido à inexistência de provas..
O bloco humorístico Tiro o Dedo do Pudim, que era oriundo do Areal da Baronesa, foi criado, por ele, em 1947. Uma das regras, do estatuto do bloco, proibia os componentes de desfilarem embriagados. Quando esta norma foi desrespeitada, por um componente, ele optou por encerrar a participação do bloco no. Carnaval, que chegou a desfilar por três anos. A partir do ano de 1947, nosso Rei Momo começou a trabalhar, de forma voluntária, nas escolinhas de futebol do Inter. Nesta atividade, ele chegou a ter mais de 3.000 jovens cadastrados nas categorias infantil e juvenil. Uma das suas exigências, em relação aos garotos, é que estes só poderiam permanecer no clube se, paralelamente, tivessem um bom desempenho escolar.
Precursor, na década de 1940, Vicente Rao criou a charanga. Tratava-se de instrumentistas que se reuniram, para animar os torcedores com buzinas, faixas, serpentinas e foguetes, transformando as arquibancadas naquilo que foi uma das suas maiores paixões: o Carnaval. Nosso Rei Momo, Vicente Rao, é considerado o criador da primeira torcida organizada no Rio Grande do Sul. Em dezembro de 1973, uma rua em nossa capital, no bairro Ipanema, recebeu, em sua homenagem, o nome de Vicente Rao.
De 1943 a 1945, não ocorreram desfiles devido 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Já em 1946, houve o Carnaval da Vitória, que simbolizou a retomada da folia de Momo e, naquele ano, os Aratimbós foram os campeões.
Na década de 1950, Rao vivenciou um tipo de descentralização com diversos coretos espalhados pela cidade e erguidos graças às doações das comunidades e da iniciativa privada. O dinheiro arrecadado era aplicado na construção das coberturas,- que visavam a abrigar as bandas-, na decoração das ruas e na distribuição de prêmios. O Carnaval, realizado na antiga Avenida Eduardo (atual Presidente Roosevelt), no Quarto Distrito, marcou época. Blocos, tribos e grupos faziam seus desfiles diante do coreto organizado por operários que viviam na região norte da cidade, tendo como apoio os comerciantes e a comunidade local.
Quanto aos blocos humorísticos, além dos já citados, existiam outros, como Canela de Zebu, Tô com a Vela, Te Arremanga e Vem e Saímos sem querer. Infelizmente, a repressão do período ditatorial (1964-1985) proibiu, em 1970, de realizarem seus desfiles, pelo fato de que suas temáticas criticavam, na maioria das vezes, o regime político vigente, cuja marca era a falta de liberdade de expressão. Além da irreverência, deboche social e da crítica política, a característica, que os diferenciava dos outros blocos, era o fato dos homens se vestirem com trajes femininos.

O CARNAVAL DO BAIRRO DA SANTANA

É Importante que se registre o Carnaval do Bairro da Santana. A Dona Maria de Lourdes Vasconcelos Bravo (Maria Bravo) falecida em 2009, aos 79 anos, manteve e garantiu, durante décadas, um verdadeiro carnaval democrático. Sem cobrança de ingressos, havia um coreto, geralmente, patrocinado por algum comerciante local. A regra deste desfile era clara: em algum momento, inesperado e sem previsão, após o desfile oficial, as agremiações se apresentariam naquele local. Desfilar no Bairro da Santana, sob os aplausos do público, era tão importante quanto a ganhar um prêmio no desfile oficial. O cenário era marcado pela presença de famílias inteiras com cadeiras, sacolas recheadas de alimento, sucos, cervejas e tudo o que se precisava para uma noite de folia na rua.

 

AS BANDAS

Outra presença em nosso carnaval foram as bandas. Estas, entre os anos de 1970 a 1980, atingiram o seu ápice. As bandas DK, Saldanha Marinho, Medianeira, Por Causas de Quê, Área da Baronesa, JB, Filhos da Candinha, Comigo Ninguém Pode, IAPI, entre outras, destacaram–se no cenário carnavalesco da Capital gaúcha. Há quem afirme que a maioria dessas bandas se extinguiram, por terem um caráter importado, que não era próprio de nosso meio. Ainda assim, algumas se transformaram em escolas de samba, como a União da Vila do IAPI, Filhos da Candinha e Areal da Baronesa. Esta última, infelizmente, já extinta, tinha uma bateria bastante afinada e admirada pelos carnavalescos.

A MUAMBA

Uma marca, provavelmente, exclusiva do Carnaval de Porto Alegre é a Muamba. Trata-se de um ensaio dos blocos e escolas que ocorre como um teste para o desfile oficial. Antigamente, a Muamba também visava a arrecadar dinheiro para o desfile oficial e ocorria em vários pontos da cidade, Geralmente, o pavilhão da escola era carregado aberto e os simpatizantes e foliões jogavam moedas ou notas sobre este. Em 1977, a Muamba foi oficializada pelo prefeito Guilherme Socias Villela, perdendo, de certa forma, o seu caráter espontâneo e irreverente.

A REVITALIZAÇÃO DOS BLOCOS

Os blocos, entre idas e vindas, têm resistido onde foram plantadas as suas raízes. No ano de 2007, na Rua Sofia Veloso, o Bloco Maria do Bairro ressuscitou esta tradição do nosso Carnaval. Em 2020, já são 24 blocos a desfilarem pelas ruas da cidade, nas quais um dia a Baronesa do Gravataí circulou no século 19. No ano de 2007, na Rua Sofia Veloso, o Bloco Maria do Bairro, ressuscitou a tradição dos blocos carnavalescos, Em 2020, são 24 blocos a desfilarem pelas ruas da cidade e pelos lugares que um dia a Baronesa do Gravataí circulou.

O COMPLEXO CULTURAL DO PORTO SECO

O desfile oficial, após peregrinar pelas Avenidas Borges de Medeiros, João Pessoa, Perimetral e pela Rua Augusto de Carvalho, necessitava encontrar um novo espaço onde pudessem ocorrer os desfiles. Com o crescimento das escolas de samba, a Augusto de Carvalho deixou de suprir as necessidades estruturais, que envolvem a realização de um grande evento como o Carnaval.
Entre inúmeras polêmicas e discussões, a proposta de um local no Bairro Menino Deus não foi aprovada. O lugar escolhido foi na Zona Norte da cidade e. recebeu o nome de Complexo Cultural do Porto Seco. Em 2004, foi inaugurada a pista de eventos, tendo sido campeões do Carnaval, daquele ano, as escolas de samba Bambas da Orgia (azul e branco) e Imperadores do samba (vermelho e branco), que conquistaram a mesma pontuação na avaliação dos jurados. No imaginário popular, a disputa ferrenha, ao longo dos anos, entre as duas agremiações, transformou-se num verdadeiro GreNal, em nosso Carnaval, devido à associação das cores de seus pavilhões com as duas grandes potências do nosso futebol: Grêmio e Internacional.
Há, ainda, um inconformismo por parte de alguns segmentos do nosso Carnaval, que atribuem um componente racista ao fato de terem transferido a Festa de Momo para uma área bem distante do centro da cidade. Desde a inauguração da pista de eventos, os simpatizantes e admiradores do Carnaval esperam por uma melhor infraestrutura no local e pela construção de arquibancadas de concreto, que terminariam com o processo, que se repete a cada ano, de montar e desmontar e também com os altos custos financeiros aplicados nessa ação. Independente das perseguições e preconceitos, o Carnaval, que atravessou os séculos, segue encantando as multidões, sendo considerado o maior espetáculo a céu aberto do Planeta.
Na virada do século, em 1900, o Carnaval na Capital gaúcha foi assim registrado pelo viajante Frank Bennett: “O Carnaval é um dos maiores eventos realizados no ano e todo mundo participa ativamente dos festejos, conquanto, cada classe social faça-o de maneira diferente (…)”.

 

 

Pesquisador, articulista e responsável pelo Núcleo de Pesquisa do Musecom*

 

BIBLIOGRAFIA

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Imagens do acervo do Museocom

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