Há 66 anos, nascia a Feira do Livro de Porto Alegre

By on 20 de Octubre de 2020 0 265 Views

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite *

Há 66 anos, no dia 16 de novembro de 1955, numa quarta-feira chuvosa, às 18 h, era inaugurada, com 14 barracas de madeira, a primeira Feira do Livro de Porto Alegre, sob a liderança do jornalista Say Marques, então, diretor-secretário do extinto Diário de Notícias (1925-1979).
O discurso de abertura foi proferido pelo secretário de Educação e Cultura Liberato Salzano Vieira da Cunha (1920-1957). Na época, em que este tradicional evento cultural foi criado, estava governando o Rio Grande do Sul o engenheiro civil Ildo Meneghetti (1895-1980), e o prefeito de Porto Alegre era o itaquiense Martim Aranha (1910-1986), que se encontrava no final do seu mandato.

O CRIADOR SAY MARQUES
   Inspirado em uma feira literária, que havia observado, na Cinelândia, no Rio de Janeiro, (RJ), Say Marques decidiu importar esta ideia para a Capital dos gaúchos. Os livreiros e editores, da época, foram procurados pelo jornalista, cujo propósito era divulgar a importância do acesso ao livro, visando a dinamizar, desta forma, o mercado com descontos bastante atrativos ao público leitor. Àquela época, devido à baixa escolaridade das camadas mais pobres da sociedade, as livrarias eram frequentadas, salvo raras exceções, por um segmento elitista e com poder aquisitivo.
O slogan da nossa 1ª Feira do Livro tinha um forte apelo sociocultural, sintetizando o motivo principal do evento: Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”. O local, escolhido para a sua realização, foi a Praça da Alfândega que, na década de 50, era ponto de referência para os porto-alegrenses. Nossa Capital, na época, somava um pouco mais de 400 mil habitantes.
Em busca de concretizar seu objetivo, o jornalista Say Marques contou com o apoio da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), Associação Rio-grandense de Imprensa (ARI) e de seus amigos Nelson Boeck, Edgardo Xavier, Mário de Almeida e Sétimo Luizelli.

A TRADICIONAL SESSÃO DE AUTÓGRAFOS
      Em 1955, ano em que foi criado o evento, Erico Veríssimo (1905-1975) não conseguira retornar dos Estados Unidos, mas foi o responsável, no ano seguinte, por introduzir a tradicional e disputada sessão de autógrafos.  Esta marca da interação, entre os escritores e o público leitor, foi considerada, naquela ocasião, um exibicionismo desnecessário e ocorreram críticas quanto à novidade. Embora, a princípio, tenha havido uma oposição à sua ideia, a criação da sessão de autógrafos acabou sendo consagrada dentro deste universo literário.

O PRIMEIRO AUTÓGRAFO

A sessão de autógrafos, naquele tempo, era diferente, pois o autor permanecia um período, na banca de sua editora, autografando. Um dado interessante é que o autógrafo pioneiro foi de um juiz de Direito, Lenine Nequete, em seu livro Da Prescrição Aquisitiva-Usucapião, comprado pelo escritor, jornalista e historiador Guilhermino César (1908-1993).

A FEIRA E A DITADURA CIVIL-MILITAR

Em 1964, ano da implantação da Ditadura Civil-Militar, no Brasil, foram instaladas, na Feira do Livro, as bancas do Diretório Estadual dos Estudantes, da Biblioteca do III Exército e da conhecida Delegacia de Costumes. Esta última se tratava de um órgão que tinha a missão de fiscalizar e vetar o conteúdo dos livros à venda nas bancas, principalmente as publicações voltadas à área das Ciências Humanas.
Nos anos de 1970, a Feira do Livro se transformou num grande evento popular, incluindo programação cultural. Aos três sinais de luz, que indicavam o seu término, somaram-se, em 1977, a presença de José Júlio La Porta (1933-2013), conhecido como “xerife”, que recebeu um sino com o qual anunciou, durante muitos anos, a abertura e o encerramento deste importante evento.
A partir de 1980, foi admitida, na Feira do Livro, a venda de livros usados. Nos anos de 1990, o evento conquistou grandes patrocinadores devido ao estímulo dado pelas leis nacional e estadual de incentivo à cultura.

    O PATRONO DA FEIRA DO LIVRO
   Em suas primeiras edições, havia apenas um orador oficial na cerimônia de abertura da Feira do Livro. A partir de 1965, institui-se a escolha de patronos entre escritores e livreiros que se destacaram no universo literário, porém as homenagens eram póstumas.
A tradição de escolher um patrono iniciou, em 1965, na sua 11ª edição, quando foi eleito o escritor e jornalista Alcides Maya (1878-1944), o primeiro gaúcho a ingressar na Academia Brasileira de Letras. No dia da sua posse, em 1914, apresentou-se com trajes típicos do gaúcho. Natural de São Gabriel, a sua obra mais conhecida é Ruínas Vivas (1910). Em sua produção literária, o autor descreve a região da Campanha, seus usos e costumes, além de registrar a violência no campo, o êxodo rural e a formação dos bolsões de pobreza. Este último era resultado das modificações nos modos de produção das nossas estâncias, gerando miserabilidade e exclusão social.
No ano de 1984, na sua 30ª edição, a escolha do patrono deixou de ser uma homenagem póstuma, para privilegiar, em vida, nomes de destaque no cenário literário.     O primeiro patrono deste período foi Maurício Rosenblatt (1906-1988), incentivador e um dos fundadores da Feira do Livro.  Este editor é considerado o responsável pela introdução, no Brasil, de grandes nomes da literatura universal.

   A PRIMEIRA PATRONESSE
 Fato curioso é que, embora a presença de importantes escritoras, em nosso Estado, desde o século 19, conforme registra a obra Dicionário Mulheres (1999), da historiadora Hilda Flores, somente em 1989 foi eleita como patrona, ou como alguns denominam patronesse, a escritora Maria Dinorah (1925-2007), rompendo, assim, com as eleições que, até então, privilegiavam apenas os homens escritores. Foram, respectivamente, patronesses da nossa Feira do Livro: Lya Luft (1996), Patrícia Bins (1998), Jane Tutikian (2011), Valesca de Assis (2017) e Maria Carpi (2018).   

     O TRADICIONAL  SINO
  Em sua 60º edição, em 2014, foi inaugurada uma escultura, representando um sino, em uma homenagem póstuma ao “Xerife”. A obra foi feita, embasalto sanguíneo, pelo escultor João Bez Batti. Pesando 200 quilos, foi inaugurada, na Rua dos Andradas, em frente à Caixa Econômica Federal. A pedra, que deu origem à escultura, foi encontrada pelo autor, no Arroio Tega, em Caxias do Sul (RS). No Jornal do Comércio, de 05 de novembro de 2014, o escultor contou à jornalista Giane Laurentino: “Levamos três dias só retirando a pedra, o trabalho todo levou três meses”.

     A FEIRA DO LIVRO DE 2020
  No dia 29 de setembro de 2020, a Câmara Rio-Grandense do Livro anunciou o patrono da 66ª Feira do Livro de Porto Alegre. Trata-se do escritor Jeferson Tenório. Desde 1984, quando a escolha do patrono da Feira do Livro deixou de ser uma homenagem póstuma, este é o primeiro autor negro a ser eleito, além de ser o mais jovem, com 43 anos, constituindo-se estes fatos num pioneirismo na história deste tradicional evento literário.
Neste ano de 2020, A 66ª Feira do Livro, a exemplo das comemorações na Semana Farroupilha, ocorrerá, no formato digital, entre os dias 30 de outubro e 15 de novembro, devido à pandemia que, ainda, nos assola.  Tendo como o tema Janelas abertas para a Praça, o evento contará, em sua abertura, com a presença da escritora chilena Isabel Allende.

A ESCOLHA DO PRIMEIRO PATRONO AFRODESCENDENTE
  Outro fato importante, que confere um caráter diferenciado à Feira do Livro de 2020, , considerando que este evento ocorre num país em que muitos defendem a ideia da existência da chamada “Democracia Racial”, embora as pesquisas comprovem que se trata de uma falácia perpetuada  no Brasil , é a escolha do primeiro patrono afrodescendente após tantos anos da criação deste evento. Esta demora em eleger um escritor negro, com certeza, não é aleatória e exige, sim, uma reflexão.
Os adeptos do mito da “Democracia Racial” se esquecem de que a Democracia pressupõe igualdade e oportunidades para todos, assim como a participação ativa nas decisões políticas. A Abolição da Escravatura (1888) não seria um processo inconcluso, como afirmou o historiador, político e jornalista Décio Freitas (1922- 2004), se o ato jurídico fosse complementado por mudanças sociais efetivas, como uma reforma agrária  e a implantação de um sistema educacional amplo e inclusivo.

O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
   O golpe de mestre da elite brasileira, do século 19, dá-se com uma abolição de forma legal, porém sem alterar o sistema social do qual era apenas o espelho. A sociedade se adaptou, visando a preservar, sob a aparência jurídica de igualdade de todos perante a lei, a distinção social entre “a Casa Grande e a Senzala”
Na realidade, velado ou assumido, esta chaga – chamada racismo – não foi extirpada da nossa sociedade, como comprovam as pesquisas do IBGE, embora alguns avanços tenham ocorrido diante da aprovação de algumas políticas afirmativas. Não registro estes dados com a finalidade de causar algum desconforto diante da importância que representa a Feira do Livro, mas, sim, como um fato concreto, para que possamos refletir acerca desta realidade histórica. 350 anos de escravidão nos deixaram marcas indeléveis de atraso econômico e cultural, resultante de um sistema escravocrata, cruel e excludente. Infelizmente, a escravidão, em suas diversas modalidades, ainda nos espreita e reinventa-se por meio de mecanismos de exploração, subtraindo a liberdade do ser humano e corroendo a própria existência.
A obra do atual patrono Jeferson Tenório traz a público estas questões, levando-nos a uma reflexão acerca das múltiplas faces do racismo, como a exclusão e suas consequências, a invisibilidade social e a própria negligência do poder público.

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
  É importante que se registre que o Dia Nacional da Consciência Negra – comemorado em 20 de novembro, tornou-se uma efeméride quando foi aprovada , em 2011, a Lei Federal 12.519. Esta proposição nasceu, no Rio Grande do Sul, a partir de discussões acerca das politicas de inclusão e do real significado do dia 13 de maio de 1888. Estes encontros ocorriam, no Grupo Palmares, em Porto Alegre, sob a liderança do professor, pesquisador, poeta e ativista do Movimento Negro: o gaúcho Oliveira Silveira (1941-2009).
A ideia, de comemorar a data da morte do líder do Quilombo dos Palmares – o africano Zumbi (1655-1695) – em detrimento da efeméride oficial da Abolição da Escravatura (13 de maio), considerando que esta última se tratou de uma abolição inconclusa, encontrou ressonância e apoio junto ao Movimento Negro Unificado (MNU), que se engajou na luta.
A eleição de Jeferson Tenório se trata de um momento bastante significativo – um marco no campo literário e uma conquista – que vai ao encontro da nossa diversidade étnica, da qual faz parte o importante legado cultural do povo negro na formação do nosso Estado.

  JEFERSON TENÓRIO E SUA PRODUÇÃO LITERÁRIA
 Nascido, em 1977, no Rio de Janeiro, o futuro escritor Jeferson Tenório se mudou para Porto Alegre, ainda menino, aos 13 anos de idade. Em Porto Alegre, formou-se, em Letras, pela UFRGS. Ao ingressar na universidade curso, ele fez parte da primeira turma do programa de cotas raciais, obtendo, em sua vida acadêmica, o título de mestre em literaturas luso-africanas, quando apresentou a sua dissertação sobre o moçambicano Mia Cout, nascido em 1955, que se tornou um expoente da literatura africana, conquistando, graças à sua importante produção, o Prêmio Camões e o Prêmio Internacional Neustadt de Literatura.
Dando segmento aos seus estudos acadêmicos, Jeferson Tenório obteve o título de doutor em teoria literária pela Escola de Humanidades da PUCRS. O autor, atualmente, é professor de Português e Literatura na rede pública de ensino da nossa Capital. Seus textos já foram adaptados para o teatro, além de seus contos que foram traduzidos para o inglês e o espanhol.  Há 30 anos, ele se encontra estabelecido no Rio Grande do Sul. Estas três décadas já lhe credenciam, diante de suas intensas atividades literárias e educacionais, em nosso Estado, o título de cidadão gaúcho.
O Avesso da Pele – seu recente livro – foi publicado, em agosto de 2020, pela Companhia das Letras, e causou impacto no público leitor. O seu lançamento ocorreu em meio à turbulência que foi causada pelas manifestações de repúdio e indignação  frente às mortes de George Floyd, em Minnesota, nos Estados Unidos, e, no cenário brasileiro, do adolescente João Pedro Mattos, na região metropolitana, do Rio de Janeiro. Em seu livro, a personagem central, também, é assassinada por policiais, tendo como força motriz, neste ato insano, o preconceito racial.
Jeferson Tenório estreou, como romancista, com a obra O Beijo na Parede, lançada em 2013, pela Editora Sulina.  O romance se trata de um menino afrodescendente que é forçado a abandonar o Rio de Janeiro – sua cidade natal – em companhia do seu pai, que era gaúcho, passando a viver em Porto Alegre. Na sequência, João, com 11 anos de idade, passa a acumular, em sua vida, uma sucessão de abandonos. A mãe havia falecido no Rio de Janeiro e seu pai, em Porto Alegre. Sua vida é recheada de percalços: é adotado, de forma relativa, por uma prostituta (que é espancada pelo seu cafetão), e convive, em um cortiço, com um travesti e dois idosos próximos da morte. Este local, de forma fictícia, estaria localizado entre a Rua Voluntários da Pátria e a Avenida Farrapos. João, na realidade, pertence ao universo da rua, identificando-se com outros seres humanos, que, em seu cotidiano, vivenciam os mesmos dramas, como a fome, o abandono, a exclusão social e a prostituição
Com a publicação deste livro, Jeferson Tenório conquistou o Prêmio de Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores. No ano 2018, esta importante publicação entrou para o Plano Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), do Ministério da Educação, passando a ser distribuída para as escolas públicas, para alunos do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental e alunos do Ensino Médio. Esta obra já atingiu mais de 60 mil exemplares distribuídos neste programa.
Em 2018, o autor lançou o seu segundo romance, cujo título é Estela sem Deus, publicado pela editora Zouk. Com certeza, o reconhecimento, da obra do escritor Jeferson Tenório e a sua condição honrosa de patrono da nossa Feira do Livro de 2020, é bastante significativo neste processo, em construção, de uma sociedade mais justa, fraterna e plural
Ao extrapolar os limites regional e nacional, A Feira do Livro já se tornou conhecida no âmbito internacional. Na América Latina, constitui-se no maior evento do gênero, que se realiza a céu aberto. No ano de 2005, graças à sua importância, recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Cultural, concedida pela Presidência da República e pelo Ministério da Cultura. Em 2010, ela foi considerada patrimônio imaterial de cunho cultural, reconhecido pela Secretaria Municipal da Cultura. Há 66 anos, ocorre este encontro especial do leitor com seu autor favorito, sendo motivo de orgulho para os gaúchos de todas as querências.

 

Pesquisador, articulista e responsável pelo núcleo de pesquisa do MuseCom*

 

 

BIBLIOGRAFÍA

FLORES, Hilda A. Hübner. Dicionário de Mulheres. Porto Alegre: Nova Dimensão, 1999.:

GALVANI, Walter. A Feira da Gente – Feira do Livro de Porto Alegre 50 Anos. Porto Alegre: Câmara Rio-Grandense do Livro, 2004.

TILL, Rodrigues. Say Marques: o criador da Feira do Livro de Porto Alegre. Porto Alegre: Evangraf, 2004.

https://feiradolivropoa.com.br/  Acessado, em 18/10/2020, às  19h05min

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