MuseCom : 46 anos em prol da Memória da Comunicação

By on 10 de Septiembre de 2020 0 303 Views

 Carlos Roberto Saraiva da Costa leite*      

Ao longo de seus 46 anos, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, criado no dia 10 de setembro de 1974, em Porto Alegre, busca cumprir, em nosso Estado, o seu papel de guardião da memória da Comunicação.
De acordo com o seu Plano Museológico, a missão da instituição está voltada à guarda, à preservação e à difusão desta memória. Representada por um valioso acervo, cujo recorte temporal contempla desde o século 19 até os dias atuais, este se apresenta na forma de diferentes tipologias ligadas à área da Comunicação, como imprensa, fotografia, publicidade, cinema, vídeo e rádio.
Ao comemorarmos o seu aniversário, é importante que nos reportemos à história da instituição, cuja criação, em pleno “anos de chumbo”, tornou-se possível graças ao apoio incondicional da Associação Rio-Grandense de Imprensa (ARI), sob a direção, na época, do grande jornalista Alberto André (1915-2001), de seu idealizador o jornalista Sérgio Roberto Dillenburg, do Secretario de Educação e Cultura Mauro da Costa Rodrigues e do então governador do Rio Grande do Sul Euclides Triches (1919-1994).
A produção cultural, na forma de monografias, dissertações, teses e livros, desenvolvida, na instituição, é de suma importância. Graças ao empenho em disponibilizar seu valioso acervo – um dos maiores da América Latina – ao público pesquisador oriundo das mais diversas universidades do Rio Grande do Sul, de outros estados do Brasil e até do exterior, o MuseCom tem recebido o reconhecimento acadêmico e da nossa comunidade cultural, ainda que enfrente alguns problemas estruturais, assim como outras instituições, no Brasil, ainda sofrem, em seu cotidiano, muitas agruras laborais, que geram preocupações constantes em relação aos seus acervos e espaços expositivos.

UM PRÉDIO LIGADO À HISTÓRIA DO JORNALISMO GAÚCHO
O prédio – onde hoje se encontra instalado o MuseCom -, foi inaugurado, em 06 de setembro de 1922, durante as comemorações do “Centenário da Independência do Brasil,” (1822-1922), para sediar o jornal A Federação (1884-1937), Órgão Oficial do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Considerado de estilo eclético, característica do período positivista, possui fachada em estilo greco-romano. Sua história faz parte da memória política e jornalística do Rio Grande do Sul, corroborando para que esse prédio se tornasse , desde 1974, a sede do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa.
Jornalista e historiador Carlos Reverbel (1912-1997), em seu livro Luiz Rossetti / O Editor Sem Rosto e Outros aspectos da Imprensa no RS (1996), na pág.70, registrou: “A função do Museu Hipólito José da Costa, de fundação relativamente recente, será impedir que se continue a praticar, no estado, o crime do jornalicídio…”

A FEDERAÇÃO (1884 – 1937)
Considerado um dos principais periódicos político-partidários, que circularam no Rio Grande do Sul, a sua criação remonta ao 1º Congresso do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), realizado em 1883, quando se aprovou a criação de um jornal que fosse porta-voz dos ideários republicanos.
O título deste importante periódico foi sugestão de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857- 1938). Fundado em 1ª de janeiro de 1884, para combater o regime monárquico, A Federação (1884-1937) participou ativamente na campanha abolicionista e noutros momentos importantes da historia do Rio Grande do Sul. Em 17 de novembro de 1937, o jornal encerrou a sua circulação, devido ao golpe de estado do Presidente Getúlio Vargas que implantou o Estado Novo (1937-1945).
De acordo com Nestor Ericksen, em seu livro Sesquicentenário da Imprensa Rio-Grandense (1977), o primeiro diretor da redação foi o jornalista e advogado paulista Venâncio Ayres (1841-1885), e o primeiro secretário de redação foi Júlio Prates de Castilhos (1860-1903). A Federação contou, em sua primeira fase, com a participação de Barros Cassal (1858-1903), Ramiro Barcelos (1851-1916), Ernesto Alves (1862-1891) Borges de Medeiros (1863-1961), entre outros nomes do cenário político do Rio Grande do Sul.
No antigo prédio do jornal A Federação – atual sede do MuseCom – circularam importantes personalidades do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) sob a batuta do Presidente do Estado Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961). Sua construção ficou sob a responsabilidade do engenheiro civil Teófilo Borges de Barros, da tradicional Escola de Engenharia de Porto Alegre, de acordo com o registro do arquiteto Fernando Corona (1895-1979), na Enciclopédia Rio-Grandense (1957), organizada por Klaus Becker. A escultura alusiva à imprensa, ao alto do prédio, é da autoria do artista italiano Luiz Sanguin (1877-1948). Restaurada, em 1995, pelo escultor João Carlos Ferreira, da equipe da Brigada Militar, contou com o apoio e supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE). O prédio é Patrimônio Histórico do Estado, desde 1977, quando foi tombado.

A INAUGURAÇÃO DO PRÉDIO DO JORNAL  A FEDERAÇÃO
Em sua inauguração, ocorrida, em 06 de setembro de 1922, às 18h, conforme o artigo publicado, em 07 de janeiro de 1984, pelo saudoso jornalista Alberto André (1915-2001), no caderno Letras e Livros (CP), estavam presentes o vice-presidente do estado e secretário do Interior Protásio Alves, o gen. Manoel Barreto Vianna, presidente da Assembleia dos Representantes; o desembargador André da Rocha, presidente do Superior Tribunal do Estado, e o cônego João M. Belém, representante do arcebispo Dom João Becker. Lindolfo Collor (1890-1942) – precursor das primeiras leis trabalhistas no Brasil e diretor do jornal – fez o discurso inaugural, enfatizando a importância do jornal A Federação e de suas lutas, desde a sua fundação, no ano de 1884, em prol da difusão do ideário republicano.
Além das autoridades da época, estiveram presentes, em sua inauguração, vários representantes dos principais jornais da época, como Dário Bittencourt (O Exemplo), Archimedes Fortini (Correio do Povo), Fábio de Barros e Mário Cinco Paus (A Manhã) e Otaviano de Oliveira (O Independente), entre outras destacadas figuras do nosso jornalismo. A descrição do prédio e da solenidade foi registrada, em 07 de setembro de 1922, nas páginas d’A Federação.
As dependências do prédio alojavam as oficinas do jornal, e o local foi sede do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), liderado por Antônio Augusto Borges de Medeiros (1863-1961), que deu continuidade à política de centralização do poder de seu antecessor Júlio Prates de Castilhos (1860-1903), que foi o primeiro redator d’A Federação. Ao eclodir a Revolução de 1923, Lindolfo Collor ocupava o cargo de diretor do jornal.
Neste local, A Federação (1884-1937) foi impressa de 06 setembro de 1922 até 17 de novembro 1937, quando Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954) determinou o seu encerramento.

O DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO
Em 1938, no mesmo prédio, começou a ser impresso, sob a direção do escritor Manoelito de Ornellas (1903-1969), o Jornal do Estado, órgão noticioso e oficial do governo.
Extinto em 1942, esse jornal assumiu o título de Diário Oficial do Estado, exercendo apenas este papel, tendo sido, mais tarde, em 1973, incorporado à Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (CORAG) que ocupou o prédio, em sua totalidade, até 1974. Quando esta se transferiu para outro bairro da cidade, o local passou a sediar, por decreto oficial, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (MuseCom).
Fundado durante as comemorações do bicentenário (1774-1974) de nascimento de Hipólito José da Costa (1774-1823), o MuseCom presta a sua homenagem ao patrono da imprensa no Brasil, que publicou, em seu exílio, na Inglaterra, devido à Censura Régia, o Correio Braziliense (1808-1822), nosso primeiro jornal. Neste mensário, Hipólito José da Costa (1774-1823) defendeu a liberdade de pensamento, criticou o poder despótico e a administração corrupta presente no Brasil Colônia e em Portugal.
Neste ano de 2020, o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, situado na Rua dos Andradas, nº 959, em pleno centro histórico da Capital e dirigido, atualmente, pelo museólogo Welington Silva, completou, com muito orgulho, seus 46 anos de serviços prestados à comunidade cultural do Rio Grande do Sul.
Parabéns MuseCom !!

 

 

Pesquisador e responsável pelo Núcleo de Pesquisa do MuseCom*

 

FOTOS DO TEXTO
1- Antigo Beco do Fanha onde hoje se encontra localizado o MuseCom
2- Gravura do MuseCom / Arte da arquiteta Jussara Kronbauer

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