O legado açoriano sob a lente de Ilka Portes

By on 29 de Octubre de 2019 0 105 Views

    “Gosto muito da natureza porque me crie
dentro dela, cavalgando , brincando.”
    (Ilka Portes Correio Braziliense 05/07/86).

Por:   Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite * 

Nos idos dos anos 1990, o Dr. Duarte Mendes, então, Diretor do Gabinete de Emigração e Apoio às Comunidades Açorianas, contatou com Instituto Cultural Português, visando a uma parceria num projeto fotográfico.
Ao ser indicada pela professora Santa Inèze Domingues da Rocha, a fotógrafa Ilka Portes (1937-2006) aceitou a proposta, cujo objetivo era registrar, em fotos, os aspectos arquitetônicos, folclóricos, religiosos, antropológicos e históricos das cidades gaúchas de tradição açoriana. Assim se deu a criação da “Mostra Fotográfica da Presença Açoriana no Rio Grande do Sul”, que a própria fotógrafa renominou com o título “Caminhos dos Açorianos no Rio Grande do Sul – Brasil.
Definidas as metas, nossa fotógrafa iniciou seu circuito pelas cidades gaúchas, onde, a partir de 1751-52 até 1758, estabeleceram-se os açorianos. Na primeira fase do projeto, Ilka se fez presente nas cidades de Rio Grande, São José do Norte, Tavares e Pelotas, analisando documentos oficiais e visitando museus e bibliotecas, além de contatar com os historiadores locais. Em seu roteiro de viagens, ela recebeu total apoio das prefeituras municipais em relação à pesquisa histórico-fotográfica e ao trabalho de registrar as imagens locais.
Concluída esta primeira etapa, ela seguiu em sua jornada que incluía os municípios de Viamão, Taquari, Santo Amaro (General Câmara), Triunfo e Rio Pardo. Com profundas raízes açorianas, estas cidades, inclusive Porto Alegre, foram eternizadas pelo registro de sua câmera fotográfica. Exceto Viamão e Rio Grande, as outras cidades não sofreram apenas a influência cultural dos açorianos, mas nasceram a partir desta presença.
Encerrando o seu roteiro, ela também registrou imagens de Santo Antônio da Patrulha, Osório, Mostardas, Tramandaí, Cangunçu, Piratini e Torres. Nestas cidades, segundo o artigo, cujo título é Ilka Portes, publicado no jornal O Continente / suplemento cultural do Estado do Rio Grande do Sul, nº 22, de setembro de 1992, que pertence ao acervo do MuseCom, Ilka fotografou, com suas câmeras, as tradições açorianas, como a Festa do Divino, os Ternos de Reis, as Folias do Divino, além dos tradicionais moinhos, as rodas d’água, que são heranças açorianas em nosso Estado.
Visando a enriquecer, ainda mais, este trabalho fotográfico, o Instituto Cultural Português convidou o Dr. Miguel Frederico do Espírito Santo – atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS (IHGRGS) – para realizar uma acurada pesquisa sobre os açorianos no Brasil. Os textos, que ele produziu, foram adequados às 138 fotografias selecionadas para compor a exposição.
Em 31 de agosto de 1992, na cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, do Arquipélago dos Açores, inaugurou-se a exposição “Os Caminhos dos Açorianos no Rio Grande do Sul – Brasil.” Convidada pelo Governo Regional dos Açores, Ilka Portes esteve presente como convidada de honra.
Itinerante, a exposição percorreu as nove ilhas dos Açores, além de ser exposta nas principais cidades das comunidades açorianas dos Estados Unidos e do Canadá, retornando a Portugal – via Funchal – na Ilha da Madeira. Lisboa, Coimbra e Porto também foram incluidas no roteiro cultural.
Nesta pesquisa, eu devo registrar a colaboração imprescindível da historiadora e genealogista Marisa Guedes, que me enviou fotos e informações valiosas sobre a vida da nossa fotógrafa.
Nascida, em 22 de outubro de 1937, em Panambi (RS), Ilca Machado Portes (nome de batismo) era filha de Olivério Portes de Bastos e de Marina Machado Portes. Aos 12 anos, ganhou sua primeira máquina fotográfica da marca Champion num concurso realizado pela Rádio Farroupilha e Pó Royal.
A partir de 1979, passou a viver em Porto Alegre. Fotógrafa desde 1952, seus trabalhos foram premiados no âmbito nacional e internacional. Cinegrafista, fotógrafa, artista plástica, além de formada em Música, a arte de Ilka Portes retratou, principalmente, a presença açoriana, em nosso Estado, a figura do gaúcho e as paisagens rurais. Fotógrafa Oficial do Governo do Estado – durante o governo de Amaral de Sousa (1929-2012) – trabalhou também no MARGS e na Fundação Zoobotânica. Em 1988, ela lançou o livro “A Brigada Militar na Revista do Globo de 1929 a 1967”.
Em 2006, após sofrer um AVC, aos 69 anos, veio a falecer. Neste ano de 2019, esta libriana estaria completando seus 82 anos de idade. Ilka Portes fez da arte de fotografar a razão de sua existência.

 

Pesquisador e coordenador do setor
de imprensa do   MuseCom*

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