O Triângulo Atlântico

By on 12 de Octubre de 2018 0 246 Views

Escreve:: Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite *

                                                        “Uma sociedade sem arte é uma sociedade sem ar”
                                                                                                Eva Sopher (1923-2018).

Durante o período de 6 de abril a 3 de junho de 2018, museus e centros culturais de Porto Alegre (RS) foram o palco da 11º Bienal do Mercosul cujo tema foi “O Triângulo Atlântico”. Nela o visitante usufruiu de uma programação, que constou de instalações, exposições, mostra de cinema – em parceria com o Festival de Gramado – espetáculos teatrais, apresentações musicais e encontros literários, entre outras atividades.
“Nossa ideia é que a bienal dialogue com várias formas de cultura”, assim afirmou Gilberto Schwartsmann, presidente da Bienal. Com o apoio do Ministério da Cultura (MinC), por meio da Lei Rouanet, a Bienal impacta de forma bastante positiva a nossa economia. Desde a sua criação, em 1997, ela tem gerado mais de 11,8 mil empregos diretos e indiretos, possibilitando também a revitalização de áreas urbanas e edifícios, a exemplo do Armazém Cais do Porto, que, em função da sua quarta edição, foi restaurado pela Fundação Bienal do Mercosul.

Espaços expositivos na cidade

Totalizando 77 artistas, estes se distribuiram entre 21 africanos, 19 brasileiros, 20 de outros países da América Latina, 11 europeus e 06 oriundos da América do Norte. Sob a responsabilidade do curador Alfons Hug (Alemanha) e da curadoria adjunta de Paula Borghi (Brasil), os trabalhos destes artistas se concentraram no Centro Histórico de Porto Alegre. Em parceria com a Fundação Bienal do Mercosul, o Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sedactel), cedeu dois equipamentos: o Museu de Arte do Rio Grande do Sul e o Memorial do Rio Grande do Sul.
A Bienal do Mercosul, além dos equipamentos do Estado, ocupou também espaços como o Santander Cultural, a Igreja Nossa Senhora das Dores e a tradicional e histórica Praça da Alfândega. Na capital, ocorreram residências em comunidades quilombolas, a exemplo do Quilombo do Areal, localizado na Avenida Luiz Guaranha, ocorrendo o mesmo no município de Pelotas, na região sul do Estado. Os artistas Camila Soato e Jaime Lauriano foram os responsáveis por trabalhos específicos nesses espaços de resistência cultural das tradições africanas em nosso Estado.
Construída pelo braço do escravizado, a Igreja Nossa Senhora das Dores – a mais antiga da capital (1807) – apresentou uma instalação sonora, totalizando oito línguas da Nigéria e oito línguas indígenas da América Latina. Ao adentrar neste espaço sagrado, o visitante ouvia o murmúrio polifônico de muitas vozes, que formava um conjunto de sons, remetendo-nos à ideia de uma oração coletiva. O curador declarou que a cada língua extinta se perde não somente o seu legado de caráter sonoro e identitário, cujo valor é inquestionável e único, mas se extinguem, na realidade, a visão genuína de mundo e do meio ambiente de determinado povo.

A eterna presença de Jean Baptiste Debret (1768-1848)

As telas de Jean-Baptiste Debret, que pertencem ao acervo do MARGS, foram pintadas a partir de 1816, durante a Missão Artística Francesa, e acompanharam o trabalho do artista Vasco Araújo. Nas telas do pintor francês Debret estão representados pontos de intersecção entre as culturas indígena, africana e europeia, constituindo-se num referencial para a história do Brasil. Com imagens ligadas ao mar, as obras de Libindo Ferrás, Ângelo Guido, Francis Pelichek e Hildegard Freidank, que também fazem parte do valioso acervo do MARGS, foram expostas junto à instalação do artista André Severo.
O Museu de Comunicação Hipólito José da Costa – dirigido atualmente pela jornalista Elizabeth Corbetta – participou com 20 fotografias do gaúcho Luiz do Nascimento Ramos (1864-1937), conhecido como Lunara, que compõem o álbum “Vistas de Porto Alegre – Photographias Artísticas”, publicado na década de 1900. Este álbum pertence ao acervo do setor de fotografia desta instituição, que é coordenado pela antropóloga Denise Stumvoll. As imagens, que misturam a visão documental com o olhar artístico do fotógrafo, assumem um pioneirismo ímpar para a época, registrando a presença da cultura negra, em Porto Alegre, no início do século 20. O fotógrafo Lunara, de forma talentosa, evidenciou, por meio da sua lente, a diversidade étnico-cultural presente no processo da formação identitária do povo gaúcho.
Em função de reformas estruturais, que estão ocorrendo no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, as fotografias do famoso Lunara ficaram, durante o período da Bienal, expostas no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS).
O tema da 11ª Bienal do Mercosul foi um convite, para que mergulhássemos nas águas do Oceano Atlântico e nas surpreendentes forças atávicas e ancestrais que as impregnaram, possibilitando a constatação de que a história dos povos do Mercosul se entrelaça com a do Velho Mundo de forma intrínseca e interativa. Ao destacar a arte africana e afro-brasileira, a 11ª Bienal do Mercosul destacou os pontos de contato que propiciaram o encontro das culturas indígena, europeia e africana.

A religiosidade e o sincretismo

A Bienal do Mercosul lançou um olhar sobre o imenso espaço atlântico que os africanos denominaram de “Calunga Grande”, significando, no dialeto iorubá, cemitério, pois os escravizados que morriam, durante o transporte nos tumbeiros ou navios negreiros, eram jogados ao mar. Este oceano é o Reino de Yemanjá – yèyé omo ejá – cuja tradução do dialeto iorubá é “ Mãe cujos filhos são peixes”, sendo este orixá a grande matriarca dentro da Teogonia africana. Ela é a grande mãe geradora e provedora do sustento de toda a Humanidade.
Orixás, voduns ou inkices vieram dentro do coração do escravizado e, por sincretismo e processos de aculturação, foram sendo associados a santos católicos até os dias atuais. O sincretismo foi a forma da qual o escravizado se utilizou, naquele momento, para burlar o poder dominante, eurocêntrico e cristão, mantendo, desta forma, a sua fé no culto aos orixás.
No Brasil, embora muitos escravizados praticassem o culto aos orixás, é importe que se registre a presença dos negros Malês, que eram convertidos ao Islamismo, exercendo atividades livres, como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Estes, em 1835, organizaram uma revolta para tomar o poder, em Salvador, na Bahia, visando à subjugação da população branca, não obtendo êxito por ter sido esta descoberta e denunciada.
Um exemplo marcante do sincretismo religioso, no Brasil, é a associação de Nossa Senhora dos Navegantes com Yemanjá. No dia 02 de fevereiro, ela é reverenciada, por meio de procissões fluviais e marítimas e de rituais de origem africana, que são realizados nas areias das praias brasileiras, reunindo católicos e adeptos dos cultos de matriz africana numa verdadeira simbiose espiritual. Neste dia, nossas praias e rios se cobrem de flores, perfumes e outras oferendas apreciadas pela Rainha do Mar.

O tráfico Negreiro

No transcorrer do século XV, a expansão de Portugal, ao longo da costa africana, favoreceu, com o aval de bulas papais, o tráfico negreiro. Totalizando 1.552.000, a América espanhola perde em índice numérico para o Brasil que, segundo estudos recentes na Universidade de Emory, em Atlanta, atingiu o total de 4,8 milhões de escravizados.
A caminho do Rio de Janeiro, que era a porta principal de entrada de navios negreiros, 300 mil morreram, tendo o mar como sepultura. Tratados como animais, os escravos eram transportados nos tumbeiros (navios negreiros), nos quais se misturavam negros de diferentes locais da África, falando dialetos diversos. Esta era a forma de dificultar a comunicação entre os mesmos, enfraquecer a sua identidade cultural, enquanto grupo étnico, visando a anular, desta forma, uma articulação de insurreição, durante o transporte, ou uma fuga em massa.

O Triângulo Atlântico

Sob uma perspectiva contemporânea e multicultural, aliada à força poética, em simbiose com a história, o conjunto expositivo representou um fio condutor de uma linha de pensamento, abordando problemáticas relativas à miscigenação oceânica em encontro com as artes. Sob a ótica atenta aos fluxos migratórios que se realizaram de forma forçada (tráfico negreiro) ou voluntária, buscou-se compreender a relação entre indivíduo e sociedade estabelecida, tendo como ponto de partida a travessia desse Atlântico, os processos de aculturação e as novas formas de organização sociopolítica e cultural.
Esta nova configuração se deu a partir deste caldeirão multirracial numa complexa e fascinante diversidade cultural, ainda que maculada por uma herança de conflitos, genocídios, sofrimentos e choques culturais resultantes dos processos eurocêntricos de dominação econômica e cultural. É incontestável que a diáspora do Atlântico Negro estabeleceu-se num intenso trânsito de religiões, idiomas, tecnologias e artes.

A miscigenação

Embora o Brasil seja, em sua origem, uma nação indígena, nosso país foi forjado por diversos povos e etnias. Na realidade, o brasileiro é fruto de uma contínua e incessante miscigenação que, no decorrer dos séculos, adicionou ao sangue indígena a carga genética do negro (trazido da Mãe África como escravizado); do branco (primeiro portugueses, franceses e holandeses e, a partir do século XIX, dos imigrantes alemães, italianos, eslavos, judeus, entre outros), além do amarelo (imigrantes chineses vindos no período de 1810 a 1820, e japoneses que aqui chegaram no ano 1908).
Nossa diversidade Cultural
Tantas combinações resultaram numa diversidade étnico-cultural rica e genuína. Composta por tradições remanescentes dos quilombos, em diversos estados do Brasil, a esta se somaram as festas tradicionais de junho, a Folia de Reis ou a Festa do Divino, que se constituem em heranças do período colonial. Acrescente-se a este quadro as datas comemorativas de santos padroeiros italianos, as celebrações do calendário judaico, as festividades alemãs – a exemplo da Oktoberfest – que formam um mosaico de diversas nacionalidades, etnias e religiões que representam a nação e a identidade do povo brasileiro. Ao cruzarem o Atlântico, em 1500, nossos irmãos lusitanos chegaram, de acordo com a Carta de Pero Vaz de Caminha ao El Rei Dom Manuel, à Ilha de Vera Cruz, iniciando assim uma história de lutas, guerras, conquistas e sonhos, ainda, inacabada em “Nossa Pátria Mãe Gentil.”

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite 

Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom *

Bibliografia

BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
JUNG, Roberto Rossi. O Príncipe Negro. Porto Alegre: Edigal / Renascença, 2007.
LOPES, Luiz Roberto. A Aventura dos Descobrimentos. Porto Alegre: Editora Novo Século, 1999.
QUEVEDO, Júlio e ORDOÑEZ Marlene. A Escravidão no Brasil / Trabalho e Resistência. São Paulo: FTD, 1999.
SANTOS, Irene; SILVA, Cidinha da; FIALHO, Dorvalina E. P.; BARCELLOS,. Vera Daisy; BETTIOL, Zoravia. Colonos e Quilombolas. Memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s/n], 2010
VILASBOAS, Ilma Silva; BITTENCOURT JUNIOR, Losvaldyr Carvalho; SOUZA, Vinícius Vieira de. Museu de Percurso do Negro. Prefeitura de Porto Alegre, Ed. Grafiserv, 2010.
ZUBARAN Maria Angélica. Comemorações da liberdade de memórias negras diaspóricas. Anos 90 / Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Porto Alegre, v.15, n. 27, Ed. UFRGS, 2008.

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