Os 180 anos do Hino Rio-Grandense

By on 18 de Septiembre de 2018 1 2072 Views

 Por:   Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite * 

                                                                                                                                               “Sou gaúcho o ano inteiro”   Paixão Côrtes (1927-2018) .

Durante um longo período da nossa história, a participação do negro foi negligenciada pela historiografia oficial. Um exemplo contundente desta invisibilidade é o quadro do artista plástico Aldo Locatelli (1915-1962) que se encontra no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul. Nesta obra de arte estão representadas as várias etnias, que participaram da formação do nosso Estado, exceto a figura do negro.
Nas produções artísticas da época, em geral, estão presentes indígenas, ainda que de forma idealizada, lusitanos, espanhóis, imigrantes de várias procedências, porém o negro está ausente ou desempenhando um papel secundário. No Rio Grande do Sul, o historiador Dante de Laytano (1908-2000) foi pioneiro ao realizar pesquisas historiográficas voltadas à contribuição do negro na formação do povo riograndense.
A capacidade de superação das adversidades, ao longo da história, é fato comprovado diante do legado deixado por alguns homens e pela forma como enfrentaram barreiras aparentemente intransponíveis. Ainda que estivessem sob o estigma da escravidão e do preconceito, seus dons e talentos se impuseram, quebrando paradigmas da sua época. É o caso deste homem, nascido em Itabira do Campo, Ouro Preto (MG), cujo legado faz parte da história político-cultural do povo gaúcho: o maestro Joaquim José de Mendanha (1800-1885).
De acordo com o historiador Walter Spalding (1901-1976), o maestro “era homem de cor, mulato carregado liberto”. Filho de Joaquim Gouvea Mendanha e Eufrásia Maria de Jesus, desde cedo se interessou pela música. A tradição oral afirma que o maestro Mendanha, próximo a completar seus 23 anos, já se encontrava no Rio de Janeiro e tornou-se maestro da Capela Imperial. Ao ingressar como músico do Exército, ele conheceu o tenente Luís Alves de Lima e Silva (1803- 1880), futuro Duque de Caxias, estabelecendo-se, a partir deste encontro, uma sólida amizade. O maestro é definido como sendo “Modesto, muito simples, espírito profundamente liberal, embora imperialista. A vida de Joaquim José Mendanha resume-se a sua atividade musical” (SPALDING, 1987, p. 145).
Em um manuscrito, que faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, seção de manuscritos, C-0755, 049, o Barão de Caxias registrou:
“[…] sua conduta civil e militar, seus atos de valor em todas as ocasiões de perigo, e seus longos serviços de campanha, unido a um talento pouco vulgar para composições de músicas, tem se tornado digno da estimação de todo o Exército”.
No dia 11 de setembro de 1836, o gen. Antônio de Sousa Netto (1801-1866) proclamou a República Rio-Grandense, após vencer a Batalha do Seival, próximo a Bagé, durante Revolução farroupilha (1835-1845). A partir deste ato, o conflito que tinha a princípio um caráter reivindicatório e combatia o centralismo político do império, os altos impostos, sobre o charque, o couro e a propriedade rural, transformou-se na mais longa guerra civil da história do Brasil.

O maestro e sua banda são presos

No ano de 1837, ele assumiu como regente a banda do 2º Batalhão de Caçadores de Primeira Linha que se deslocou para a Província de São Pedro em apoio às forças legalistas. Em 30 de abril de 1838, o maestro se encontrava com sua banda, na Vila de Rio Pardo, quando o lugar foi atacado pelos farroupilhas. Neste importante combate, conhecido como o do Barro Vermelho, os farroupilhas venceram e aprisionaram-no com sua banda.
Neste combate, na Vila de Rio Pardo, houve participação dos bravos “Lanceiros Negros” liderados pelo Cel. Joaquim Teixeira Nunes (1802-1844) Estes, em sua maioria, eram recrutados entre os negros do campo e domadores da então Província de São Pedro. Muitos lanceiros eram escravos que fugiam dos imperiais, buscando conquistar a liberdade. Armados, com adagas e lanças, eram verdadeiros gigantes bélicos, pois sabiam que a sua liberdade a cada confronto estava em jogo.
Os lanceiros, em sua maioria, montavam a cavalo quase em pelo. Os melhores atiradores recebiam as poucas armas de fogo que eram utilizadas em momentos específicos. Os ponches de lã lhes serviam de cama e de proteção contra as intempéries. A cavalo, durante o combate, o ponche enrolado no braço esquerdo amortecia ou desviava de uma lança ou golpe de espada. Desmontado, corpo a corpo, o ponche servia para aparar ou desviar de uma adaga. Também se utilizavam de boleadeiras, cuja origem é indígena, abatendo o inimigo quando distante do alvo da sua lança.
Infelizmente, estes bravos foram traídos e grande parte foi dizimada em Porongos, atual região de Pinheiro Machado (RS), em 14 de novembro de 1844. A traição de Porongos é tratada, pelo historiador Mário Maestri, no seu livro “O Escravo Gaúcho – Resistência e Trabalho” (1993), editado pela UFRGS. De acordo com o historiador, o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul reconheceu a assinatura do Duque de Caxias (1803-1880) como autêntica. Este episódio, ainda, suscita muita polêmica quanto ao acordo que teria ocorrido entre imperiais e farroupilhas para dizimarem “O Corpo de Lanceiros Negros” no ataque surpresa à noite, em Porongos, enquanto todos dormiam. Nesta carta se encontra o seguinte trecho:
“No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro”.
Retomando o nosso personagem, sobre o Combate na Vila de Rio Pardo (1838), o Barão de Caxias, em documento oficial, exalta a atuação do maestro Joaquim Mendanha:
“[…] no desastroso combate de Rio Pardo em que elle abandonando os instrumentos de sua profissão, logo que principiou o combate, armou a todos os seus companheiros, e com elles combateo ao lado do seu digno chefe o Coronel Guilherme Jose Lisboa até que tendo sucumbido o dito Coronel e decidindo-se a Victoria por parte dos rebeldes, quando os officiaes e soldados tinhão acabado de entregar as suas armas e que estavão sendo inaltados pelos rebeldes os cadáveres dos officiaes do Exercito Imperial que jazião sobre o campo do combate, elle teve a audácia de se dirigir,diretamente ao General rebelde e de lhe pedir licença para enterrar o seu chefe, com todas as honras fúnebres, que correspondião a sua patente e valor, e foi tal o desembaraço, que isto praticou que os mesmos rebeldes consentirão, e elle com a sua banda de musica, e a sua custa, fez o enterro de seu chefe com todas as formalidades da Igreja […]”. (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro / RJ, seção de manuscritos, C-0755, 049).

Mendanha compõe o Hino Farroupilha

Aprisionado o maestro e a sua banda, os farroupilhas aproveitaram a ocasião para exigir que Joaquim Mendanha compusesse um hino para a República Rio-Grandense. Diante da condição de prisioneiro de guerra, compôs o que lhe foi exigido. Esta primeira versão do hino publicada, em 1955, pelo professor Walter Spalding (1901-1976), teve a letra escrita , segundo o historiador Sérgio da Costa Franco, pelo capitão farroupilha Serafim Joaquim de Alencastre e foi executado, pela primeira vez, no dia 06 de maio de 1838. O maestro e sua banda acompanharam os farroupilhas durante um ano
Em sua edição de 4/05/1839, o Órgão Oficial da República Riograndense, “O Povo” (1838-1840), publicou uma letra do Hino Farroupilha, conforme foi cantada no baile, na 2ª Capital farroupilha, Caçapava, em comemoração ao primeiro aniversário do Combate do Barro Vermelho, ocorrido, em Rio Pardo, no ano de 1838. Esta versão é diferente da primeira e de autor desconhecido. O jornal “O Povo” denominou de Hino Nacional. Ao ser executado num baile comemorativo, com a presença de nomes importantes da época, o Hino da Nação consolidou o nome do maestro Mendanha na história do Rio Grande do Sul. De acordo com W. Spalding, em seu livro, “Revolução Farroupilha”, publicado em 1987, p. 146:
“Foi esta música, por se ter conservado, que deu celebridade a Joaquim José Mendanha. Não fosse isso, em virtude de sua modéstia, talvez jamais seu nome fosse recordado, pois, conforme dissemos, tudo quanto compôs se perdeu ou perdeu sua identidade ao cair em domínio público, passando para o campo do folclore”.
No ano de 1933, quando se iniciavam os preparativos para comemorar o Centenário da Revolução Farroupilha (1935), o Instituto Histórico e Geográfico do RS (IHGRS) aprovou uma letra, que agradou o gosto popular, ficando como versão definitiva. O responsável, pela terceira letra do Hino, foi o poeta e compositor Francisco Pinto da Fontoura (1793 -1888), cuja alcunha era “Chiquinho da Vovó”.
A partitura já havia sido publicada no jornal “A Federação” (1884-1937), do Partido Republicano Rio-grandense (PRR), em 03 de dezembro de 1887. Em 1934, o professor e doutor Antônio Tavares Corte Real revisou a música composta pelo Maestro Mendanha, visando à adaptação dos versos de “Chiquinho da Vovó”.

Um Hino polêmico

No Diário Oficial do Estado, de 07 de janeiro de 1966, em plena Ditadura Militar, a melodia e a letra foram oficializadas como Hino Farroupilha ou Hino Rio-Grandense, sendo cortada a segunda estrofe da letra original do “Chiquinho da Vovó”. É possível que, naquele período, o vocábulo “tiranos”, presente num verso, não tenha agradado aos militares. Segue a estrofe:

“Entre nós reviva Atenas
Para assombro dos tiranos;
Sejamos gregos na glória,
Virtude, romanos”.

Outra questão que desperta polêmica é quanto aos versos presentes no estribilho do Hino Oficial, aos quais alguns críticos atribuem a presença de um componente racista, embora isto não se constitua numa opinião generalizada. Alguns concluem: a estrofe registra que a ausência da virtude resulta em escravidão; logo o negro, a exemplo do lanceiro, que resistiu e lutou em busca de liberdade, era destituído de virtude O Jornal “A Federação” (1884-1937) reproduziu esta letra em 3/12/1887. Segue a estrofe:

“Mas não basta para ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo.
Povo que não tem virtude,
Acaba por ser escravo.”

Durante um período, propagou-se a ideia de que a música do Hino Rio-Grandense era baseada numa valsa de Johann Strauss (pai). Esta ideia, após minuciosa pesquisa de Antônio Corte Real, doutor em Música, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi descartada. Embora o hino tenha suscitado, no transcorrer do tempo, algumas polêmicas, é indiscutível o seu valor estético e sua importância para os gaúchos. O maestro negro nos legou, por meio de seu talento, uma bela composição que é executada nas cerimônias mais significativas do Rio Grande do Sul junto com o Hino Nacional.

O maestro passou a viver em Porto Alegre

A Revolução Farroupilha (1835-1845) transcorria, quando o maestro Mendanha fixou residência, em 1842, em Porto Alegre. Ele contou com o apoio de seu amigo o futuro Barão de Caxias, presidente da Província, para que se dedicasse, exclusivamente, à música. E assim o fez. Fundou uma orquestra, criou um coral com as senhoras da sociedade porto-alegrense e dirigiu os coros da Igreja das Dores e da Matriz. Em 02 de dezembro de 1855, ele fundou a Sociedade Musical de Porto Alegre. Um momento significativo e bastante emocionante na vida do maestro Joaquim Mendanha, ocorreu, em 27 de junho de 1858, quando regeu na inauguração do Teatro São Pedro uma orquestra de 24 músicos para deleite da elite local.
No ano de 1877, O maestro recebeu a comenda imperial da Ordem da Rosa por iniciativa do seu amigo o Duque de Caxias, na época, presidente do Conselho de Ministros do Império. Figura simpática e amável, o maestro conquistava amizades por onde passava e teve seu nome registrado numa crônica de Achyles Porto Alegre (1848-1926), cujo título “O velho Mendanha” foi uma homenagem do escritor ao maestro. Segue um trecho:
“Diante de seus músicos, com a sua casaca bem talhada, gravata branca, e comenda ao peito, riscando no ar o compasso musical com a sua batuta, o velho maestro nada mais ambicionava na vida”.
Joaquim Mendanha também criou a Irmandade de Santa Cecília, padroeira dos músicos, dando um grande destaque às festividades, que, ainda, acontecem no dia 22 de novembro a cada ano.
Segue o nosso cronista, Achylles Porto Alegre, comentando sobre o maestro Mendanha:
“Nos últimos dias da existência subia a escada do coro agarrado ao braço de um de seus discípulos. Quase sempre era o professor Lino quem se incumbia de levá–lo às alturas, com paciência e carinho. E quando o maestro chegava ao coro criava alma nova, parecia que havia remoçado alguns anos, era outra criatura”.

O maestro após a Revolução Farroupilha (1835-1845)

Ao final da Revolução Farroupilha, segundo o historiador Dante de Laytano (1908-2000), ele retornou a Rio Pardo, visando a exumar os restos mortais de seu comandante, o coronel Lisboa, para dar-lhe um destino apropriado de acordo com sua dedicação ao Exército Imperial.

Após o acordo de Paz, em Ponche Verde, em 1845, o maestro, que era monarquista convicto, regeu à porta do antigo Palácio, em Porto Alegre, uma banda de música, prestando uma homenagem ao Barão de Caxias, seu amigo e presidente da Província, que havia ganho de dom Pedro II o título de “O Pacificador”. O nome do maestro se encontra entre os subsescritores das despesas para o banquete, em 1845, em homenagem ao imperador dom Pedro II e à sua esposa a imperatriz Teresa Cristina.
O maestro negro, Joaquim Mendanha, faleceu, em 02 de setembro de 1885, aos 85 anos, legando às gerações vindouras a composição do Hino Rio-Grandense, que neste ano completou 180 anos; além de outras realizações importantes no campo musical. Seu talento e o pioneirismo de seu trabalho se destacaram numa época de conservadorismo, preconceito e escravidão. Com certeza, o maestro mineiro, que viveu em Porto Alegre, por quase 50 anos, dedicando-se à música, merece o reconhecimento dos gaúchos de todas as querências.
Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom *

Referências Bibliográficas:

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Gabinete do Vereador Raul Carrion, 2005
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FLORES, Moacyr. Negros na Revolução Farroupilha: Traição em Porongos e farsa em Ponche Verde. Porto Alegre: EST, 2004.
LAYTANO, Dante. História da República Rio-Grandense. Porto Alegre: Sulina,1983.
MARTINI, Cyro. A Cidade Risonha de Aquiles Porto Alegre. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2013.
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——- Os Farroupilhas e suas Façanhas. Porto Alegre: Fundação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF), 2009.
SPALDING, Walter. A epopéia Farroupilha. Biblioteca do Exército, 1963.
______ Revolução Farroupilha. Triunfo: Petroquímica Triunfo, 1987.

 

 

Roberto Da Costa Leite /  Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom *
1 Comment
  • No artigo sobre o Hino Rio-Grandense: a data correta de falecimento do Francisco Pinto da Fontoura, ou ” Chiquinho da Vovô.”, é 1858., de acordo com o seu assentamento de óbito. Faleceu assassinado aos 41 anos. LIvro nº 1 -folhas 64- Paróquia de Sant’Ana do Livramento

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